O governo brasileiro decidiu não se inscrever como orador nas audiências públicas que o USTR abriu nesta segunda-feira (6) sobre o tarifaço de Donald Trump contra produtos brasileiros. A embaixada em Washington enviará representantes apenas como observadores — sem tomar a palavra.
Com o prazo de 15 de julho chegando, o Planalto aposta nas negociações diretas com os EUA como principal caminho para evitar ou reduzir as tarifas.
A posição contrasta com a de dois nomes da oposição: o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o influenciador Paulo Figueiredo se inscreveram para discursar. Flávio abre o segundo dia das audiências com argumentos que já havia detalhado ao USTR — incluindo a promessa de “compromisso legislativo” para não internacionalizar o PIX e a narrativa de que atua como interlocutor direto de Trump.
Para o Itamaraty, a escolha de enviar apenas observadores tem lógica própria: as sessões do USTR são espaço do setor privado — não uma mesa de negociação entre governos. A negociação de verdade, para Brasília, acontece em outro lugar.
Proposta enviada, resposta ainda pendente
Na semana passada, o ministro Marcio Elias Rosa se reuniu com o representante comercial americano, Jamieson Greer. O encontro veio na esteira do argumento econômico reforçado por Alckmin: os EUA têm superávit comercial com o Brasil — raridade no G20 — o que, para o governo brasileiro, derruba a justificativa técnica do tarifaço. Novas conversas foram anunciadas para os próximos dias.
Nesses canais bilaterais, o Brasil apresentou uma proposta formal endereçando os 6 pontos levantados pelos americanos. Até o momento, não houve resposta formal da outra parte. O prazo de 15 de julho pressiona os dois lados.
Ceticismo nos bastidores do Planalto
Por dentro, a avaliação de integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty é mais reservada do que o tom oficial. A leitura predominante é que a recomendação do USTR tem caráter político — e que os argumentos técnicos apresentados pelos negociadores ao longo do último ano foram sistematicamente desconsiderados.
Um indício citado pelos interlocutores: os documentos do início da investigação comercial, de julho de 2025, e da recomendação pelas tarifas, de junho de 2026, são “praticamente iguais” — o que, na visão do governo, revela uma decisão já tomada antes mesmo do diálogo.
Diante disso, sob reserva, integrantes do governo admitem não acreditar na reversão completa do tarifaço. A expectativa mais realista é de uma eventual redução nas alíquotas ou o anúncio de exceções para determinados produtos brasileiros.
