Apesar do discurso público do presidente Lula (PT) de que o tarifaço dos Estados Unidos não será aplicado, a área técnica do governo brasileiro já trabalha, nos bastidores, com um cenário desfavorável nas negociações comerciais.
A avaliação interna é de que dificilmente o Brasil evitará a medida, e o governo já discute qual será sua reação caso o tarifaço seja confirmado. O prazo para a decisão dos Estados Unidos termina nesta quarta-feira (15).
Um dia antes da declaração otimista de Lula, o próprio presidente já havia descartado publicamente a aplicação do tarifaço em visita a São José dos Campos — mesmo com a equipe técnica trabalhando, internamente, com o cenário oposto.
Seção 301 fortalece a posição americana
Técnicos brasileiros avaliam que o uso da Seção 301 pelo governo americano dá maior sustentação jurídica a uma eventual decisão contra o Brasil. Segundo a leitura interna, os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil não encontraram espaço porque a decisão dos Estados Unidos se encaminha, desde o início, para uma solução política, não técnica.
Pix e etanol seguem fora da mesa
Entre os temas levantados pelos Estados Unidos nas negociações estão o Pix e o etanol, mas o governo brasileiro blindou os dois setores e os trata como não negociáveis. A avaliação interna é de que ceder nesses pontos abriria um precedente inaceitável para a política econômica do país.
Além de preparar uma resposta institucional, o Planalto planeja usar o episódio como ativo na campanha eleitoral de 2026, associando a pressão americana à atuação da oposição — especialmente do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência.
Em carta enviada ao USTR, órgão de comércio dos Estados Unidos, Flávio pediu 180 dias de prazo adicional e prometeu que o Pix não seria integrado a sistemas ‘não ocidentais’ — documento que o governo Lula classifica como tentativa do senador de blindar sua candidatura antes da eleição. Dias antes, ele já havia ido a Washington participar de audiência pública do USTR, buscando se posicionar como interlocutor de Trump.
As movimentações de Flávio e as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro sobre o Pix deverão ser usadas pela campanha governista para sustentar o discurso de que setores da oposição contribuíram para a pressão americana contra o Brasil.
