Um grupo católico ultraconservador que celebra missas em latim — com o padre de costas para os fiéis — planeja sagrar novos bispos no dia 1º de julho sem autorização papal. O Vaticano já avisou: quem participar será excomungado.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) rejeita as reformas do Concílio Vaticano 2º dos anos 1960 e atua em 14 capelas espalhadas pelo Brasil. Ao redor do mundo, reúne cerca de 1 milhão de fiéis e 700 padres.
A cerimônia está marcada para Écône, na Suíça — berço do movimento —, e será o primeiro grande teste do pontificado do papa Leão XIV.
A ruptura que não acabou
A história começa em 1962, quando a Igreja Católica convocou o Concílio do Vaticano 2º — uma assembleia de bispos que, entre 1962 e 1965, reformou radicalmente a liturgia. O latim cedeu lugar aos idiomas locais, o padre virou-se para os fiéis, e a leitura da Bíblia passou a ser incentivada entre os leigos. A Igreja abriu-se ao diálogo com outras religiões e à ideia de que a fé é uma escolha individual.
Para o arcebispo francês Marcel Lefebvre, aquilo era uma traição. Em 1970, ele fundou na Suíça o Seminário Internacional São Pio X para formar sacerdotes no modelo pré-conciliar. Mais de 40 mil padres haviam deixado o sacerdócio nesse período turbulento — e a Fraternidade nasceu como reação a esse caos, segundo o historiador Vinícius Couzzi Mérida, doutor em Ciências da Religião que pesquisa o catolicismo tradicional há mais de 20 anos.
A tensão chegou ao limite em 1988, quando Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do papa João Paulo 2º. A punição foi a excomunhão — o castigo mais severo da Igreja, que proíbe a participação em sacramentos e ritos católicos. Mesmo assim, a congregação não recuou. Se internacionalizou, avançou pela Europa, pelos Estados Unidos, pela Argentina e chegou ao Brasil.
Agora, quase quatro décadas depois, o ciclo se repete. A Fraternidade quer nomear novos bispos. A Santa Sé já avisou que as sagrações sem consentimento papal serão interpretadas como ruptura formal — e que a excomunhão voltará sobre bispos, sacerdotes e os novos ordenados.
Como a FSSPX chegou ao Brasil
A entrada da Fraternidade no país tem conexão direta com a Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro — outro grupo que rejeitava o Concílio Vaticano 2º e com quem a FSSPX mantinha laços estreitos. Em 2002, contudo, os chamados “padres de Campos” aceitaram a reconciliação proposta pelo papa João Paulo 2º e voltaram à plena comunhão com a Santa Sé. Para a Fraternidade, foi uma traição.
Fiéis que recusaram a virada pediram que a FSSPX passasse a atuar no Brasil. O grupo se instalou no norte fluminense, em São Paulo e no Sul. Hoje está em 14 cidades — São Paulo, Indaiatuba, Ribeirão Preto, Sorocaba, Itapetininga, São José do Rio Preto, Passos, Curitiba, Cuiabá, Campo Grande, Fortaleza, Parnaíba, Teresina e São Luís — cobrindo quatro das cinco regiões do país.
O embate com a Fraternidade será o primeiro grande teste do pontificado de Leão XIV — que em maio surpreendeu ao pedir perdão histórico pelo papel da Igreja na escravidão, sinalizando um perfil progressista que torna ainda mais improvável qualquer concessão ao grupo ultraconservador.
“Ao que tudo indica, a Santa Sé permanecerá irredutível, exigindo que a Fraternidade aceite o Concílio Vaticano 2º”, avalia Mérida. Como a congregação também não dá sinais de recuo, o mais provável é que “os bispos, sacerdotes e os futuros bispos que serão sagrados serão excomungados”. O próximo capítulo começa a ser escrito em julho — com ecos que devem reconfigurar o jogo de forças dentro do catolicismo mundial.
