O iFood entrou com uma petição formal no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pedindo que o órgão monitore de perto a atuação da 99Food e da Keeta no mercado brasileiro.
A empresa afirma que as duas plataformas — controladas pelas chinesas DiDi e Meituan, respectivamente — têm acesso a capital barato via políticas de expansão do governo da China e usam esse recurso para operar no prejuízo e conquistar mercado.
A petição pede que o Cade requisite dados sobre custos e preços das plataformas para verificar se há indícios de concorrência desleal.
Capital chinês no centro da disputa
Na petição, o iFood aponta que a DiDi e a Meituan se beneficiam de condições de financiamento favorecidas por programas do governo chinês, como a Nova Rota da Seda e iniciativas voltadas à expansão internacional de empresas de tecnologia. Segundo a empresa, esses mecanismos permitem que as plataformas operem com prejuízos prolongados sem comprometer sua viabilidade.
Como evidência, o iFood cita relatório do banco australiano Macquarie apontando os investimentos da DiDi no Brasil como principal fator de um prejuízo de US$ 470 milhões registrado no último trimestre de 2025. A Meituan, por sua vez, teria acumulado US$ 3,4 bilhões em perdas ao longo de todo o ano.
Para reforçar o argumento, o documento lista países onde concorrentes locais saíram do mercado após a entrada dessas plataformas — entre eles Hong Kong, Catar e Kuwait — e cita um estudo do próprio Cade sobre práticas de preços predatórios em outros países.
Cerco regulatório sobre plataformas chinesas
A petição ao Cade se soma ao avanço regulatório sobre o setor: em junho, a Senacon abriu processo administrativo contra a 99Food por ocultar a composição de preços cobrados dos usuários — a mesma empresa que o iFood agora acusa de usar capital subsidiado para praticar preços predatórios no Brasil.
Com base em precedentes de países como China, Índia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar, o iFood pediu ao Cade que solicite formalmente às plataformas informações sobre seus modelos de custo e as tarifas praticadas no mercado brasileiro.
A medida, se adotada, daria ao órgão antitruste subsídios para avaliar se a estratégia de crescimento via descontos e prejuízos deliberados configura prática anticoncorrencial sob a legislação brasileira.
O movimento do iFood ocorre em um momento de forte acirramento da competição no delivery, com a chegada recente da Keeta e a expansão da 99Food pressionando margens e alterando a dinâmica do setor. A empresa líder aposta em uma resposta regulatória para conter o avanço das concorrentes enquanto o Cade ainda não tem posição definida sobre o tema.