Temperaturas acima de 40°C em países de clima historicamente ameno estão redefinindo a relação da Europa com o ar-condicionado. O que por décadas foi tratado como luxo desnecessário passa a ser debatido como necessidade diante de ondas de calor cada vez mais frequentes e letais.
França, Alemanha e Reino Unido concentram o debate. Enquanto EUA e Japão chegam a 90% de penetração do equipamento em residências, a média europeia é de apenas 20% — com Alemanha em 3% e Reino Unido em 5%.
Por que a Europa demorou tanto
A baixa adoção do ar-condicionado no continente não foi acaso. Até poucas décadas atrás, a Europa simplesmente não precisava do equipamento: as ondas de calor existiam, mas eram menos frequentes e menos intensas do que hoje.
A arquitetura também funcionou como barreira. Em boa parte do sul europeu, construções tradicionais usam paredes grossas, janelas pequenas e ventilação natural para manter ambientes frescos. Nos centros históricos, regras rígidas de preservação dificultam a instalação de unidades externas.
O custo energético completou o quadro. A eletricidade na Europa tende a ser mais cara do que nos Estados Unidos, tornando o ar-condicionado um gasto difícil de justificar em regiões onde o calor era pontual.
O dilema climático do continente
A mudança de cenário coloca a Europa em rota de colisão com suas próprias metas. De um lado, o ar-condicionado protege contra temperaturas potencialmente fatais — a OMS contabiliza mais de 200 mil mortes europeias por calor extremo nos últimos quatro anos. De outro, o aumento do consumo elétrico ameaça os compromissos de neutralidade de carbono da União Europeia até 2050.
Há ainda um efeito colateral pouco discutido: o calor retirado dos ambientes é devolvido às ruas, intensificando o chamado efeito de ilha de calor urbana. Um estudo de 2020 sobre Paris mostrou que o uso massivo de aparelhos pode elevar a temperatura externa entre 2°C e 4°C — impacto especialmente severo nas cidades mais densas do continente.
O debate político chegou ao Parlamento francês, onde partidos de diferentes espectros discutem a ampliação do acesso ao ar-condicionado em escolas, hospitais e residências de idosos — grupos identificados como mais vulneráveis aos eventos extremos de calor.
No varejo, os números já refletem a mudança de comportamento. Fabricantes registram crescimento da procura em regiões do norte europeu, historicamente alheias ao equipamento, e redes de lojas na França anotaram alta nas vendas durante as recentes ondas de calor.
O mercado deve crescer de forma consistente. Segundo dados do Statista, a receita com unidades de ar-condicionado na Europa deve saltar de 8,35 bilhões de euros em 2024 para 11,43 bilhões em 2029 — crescimento de 37% em cinco anos.
A pressão sobre o continente não é nova. Ainda antes do verão começar, França, Reino Unido e Países Baixos já enfrentavam ondas de calor que economistas estimam poder custar até 7% do PIB dos países mais expostos entre 2026 e 2030. A tendência aponta para verões mais longos, mais quentes e com maior pressão sobre infraestrutura e populações vulneráveis.
