A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, com mandados cumpridos contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o gestor Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do banqueiro preso Daniel Vorcaro.
Uma mensagem captada pelos investigadores resume o vínculo suspeito: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”, escreveu Lima a Wagner em referência à venda do Banco Master ao BRB.
Como contrapartida à suposta atuação parlamentar em favor do Master, a PF identificou a oferta de um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões ao senador.
O papel de Augusto Lima na investigação
A decisão do STF que embasou a operação, assinada pelo ministro relator André Mendonça, aponta Augusto Ferreira Lima como principal interlocutor privado de Jaques Wagner. É ele a figura central na entrega das vantagens: coordenou o uso de jatos, operacionalizou a compra do imóvel indicado pelo senador e gerenciou repasses para a BN Financeira.
O apartamento apontado como propina é a unidade 1.702 do empreendimento Poème Horto, cujos dados teriam sido repassados diretamente de Wagner para Lima. As tratativas teriam continuado mesmo após o início da operação, com chamadas de voz, reuniões presenciais e videoconferências.
A PF também identificou o uso de jato particular para levar Wagner até uma ilha apontada como propriedade de Lima, além de R$ 3,5 milhões repassados via empresa ligada à família do senador. Ingressos de camarote avaliados em R$ 63 mil para um show em Los Angeles, em novembro de 2023, também integram o rol de vantagens atribuídas ao senador na mesma investigação.
Emendas e atuação parlamentar suspeita
Segundo a PF, Wagner teria agido diretamente em temas legislativos de interesse do Banco Master. Uma das frentes foi a emenda n° 30 à Medida Provisória 1.106/2022, que propunha elevar a margem consignável de salários CLT e aposentados — posteriormente convertida em lei.
Outra vertente foi a PEC 65/2023, relacionada ao limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Nesse ponto, Wagner teria atuado em prol da chamada “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Os investigadores mapearam uma sequência de contatos entre o chefe de gabinete de Wagner, Lima, Daniel Vorcaro e Guilherme Sodré. Em 13 de agosto de 2024, quando a emenda n° 11 foi incluída, registrou-se uma ligação de 9 minutos e 19 segundos entre Wagner e Lima, seguida do envio imediato do link da emenda.
STF nega buscas no gabinete do senador
Apesar de autorizar os mandados contra Wagner, André Mendonça não acolheu o pedido da PF para realizar buscas no gabinete do parlamentar. A Procuradoria-Geral da República também havia se manifestado contra a medida.
Na fundamentação, o ministro afirmou que buscas em dependências de outro Poder “reclama fundamentação particularmente rigorosa”, capaz de demonstrar que as provas indispensáveis só poderiam ser obtidas naquele espaço. Escritórios ligados ao mandato de Wagner também ficaram de fora dos mandados.
Durante as buscas desta manhã, agentes da Polícia Federal apreenderam US$ 49 mil em espécie — equivalente a cerca de R$ 250 mil — em um imóvel ligado ao senador no Distrito Federal.
Rombo no BRB
A operação expõe a dimensão da exposição financeira gerada pelas negociações entre o Master e o BRB. Segundo balanço da gestão atual do banco, R$ 30 bilhões foram transacionados entre as duas instituições de 2024 a outubro de 2025. Desse total, R$ 12,12 bilhões foram alvo de apuração; pelo menos R$ 8,8 bilhões eram títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação — o que a investigação classifica como “crédito podre”.
O presidente do BRB à época das negociações, Paulo Henrique Costa, já está preso. A assessoria de Jaques Wagner não havia se pronunciado até o momento da publicação desta reportagem.
