A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, cumprindo 18 mandados de busca e apreensão — incluindo um endereço do senador Jaques Wagner em Salvador.
Mensagens e áudios do celular do empresário Augusto Lima revelam que ele disponibilizou uma aeronave particular para transportar Wagner e familiares até a Ilha da Paixão, em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, entre 11 e 13 de outubro de 2023.
A ilha é apontada nos autos como propriedade do próprio Lima. O parlamentar é suspeito de ter recebido R$ 3,5 milhões e um apartamento em troca de atuação em favor do grupo Banco Master no Congresso.
Aeronave, ilha e ingressos: os benefícios mapeados
O episódio da aeronave está entre os elementos que a PF usa para documentar a relação entre Lima e Wagner. O empresário encaminhou ao senador o prefixo da aeronave e o horário do voo para viabilizar o deslocamento entre Salvador e a ilha apontada como de sua propriedade.
A aeronave para a Ilha da Paixão não foi o único benefício mapeado: semanas depois da viagem, Augusto Lima pagou ingressos de camarote avaliados em R$ 63 mil para um show em Los Angeles a pedido do próprio senador — o mesmo padrão de vantagens documentado nas mensagens do celular do empresário.
O fluxo dos R$ 3,5 milhões
A investigação aponta que Wagner teria recebido R$ 3,5 milhões e um apartamento em Salvador, mas os valores não foram transferidos diretamente. O dinheiro saiu da PKL One Participações S.A., dirigida por Andréa Lima Novaes — prima de Augusto Lima — e chegou à BN Financeira Ltda., empresa ligada ao núcleo familiar do senador.
Os valores foram repassados à BN Financeira dias após o enteado de Wagner cobrar diretamente Lima por boletos vencidos. A PF descreve a empresa como microempresa com capital reduzido que recebeu valores expressivos em supostos contratos com o grupo Master.
Emenda Master e atuação parlamentar
Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha atuado pela aprovação da chamada Emenda Master — proposta que ampliaria a cobertura do FGC e viabilizaria o modelo de negócios do Banco Master. A PF apurou que o texto foi elaborado pela assessoria do banco e entregue ao senador Ciro Nogueira em envelope. A decisão do ministro André Mendonça, do STF, que autorizou a operação, detalha as conexões entre o parlamentar e o grupo financeiro.
A assessoria de Jaques Wagner não respondeu aos contatos. A defesa de Augusto Lima afirmou que as diligências “eram desnecessárias” e que ele “sempre atuou dentro dos limites da lei”.
Durante as buscas desta quinta, a PF encontrou ainda cerca de R$ 250 mil em dólares em espécie em um imóvel ligado ao parlamentar em Brasília, ampliando o quadro de vantagens investigadas na operação.
O rastro da Operação Compliance Zero
A investigação foi deflagrada em novembro de 2025, quando o Banco Master foi acusado de emitir títulos sem garantias suficientes para atrair investidores com promessas de rentabilidade acima do mercado. O presidente do banco, Daniel Vorcaro, foi preso na primeira fase. O prejuízo potencial estimado chega a R$ 12 bilhões.
O escândalo levou à liquidação extrajudicial do Banco Pleno, de Augusto Lima, pelo Banco Central. Ao longo das fases seguintes, a investigação foi ampliada para incluir lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, espionagem e corrupção, atingindo familiares e aliados de Vorcaro.
Entre os outros alvos estão o senador Ciro Nogueira (PP-PI), investigado por supostos pagamentos ligados ao banco, e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), no âmbito de apurações sobre investimentos do Rioprevidência em fundos do grupo Master. Todos negam irregularidades.
