Os 10% que mais consomem no mundo geram entre US$ 1,7 trilhão e US$ 5,7 trilhões em danos ambientais por ano — cifra que supera, sozinha, as grandes metas internacionais de financiamento climático e de biodiversidade.
A estimativa vem de um estudo das universidades de Leiden e Oxford, publicado nesta quarta-feira (18) na revista Communications Sustainability. Mais de 60% desse grupo de alto consumo vivem nos Estados Unidos e na União Europeia.
A pesquisa analisou seis países — Brasil, China, Egito, Alemanha, Índia e Estados Unidos — e calculou o impacto ambiental médio individual desse grupo em US$ 2.300 a US$ 7.500 por ano. A variação é enorme conforme o território.
Nos Estados Unidos, onde o impacto individual é o mais alto entre os locais analisados, cada pessoa desse topo de consumo gera entre US$ 19 mil e US$ 63 mil em danos por ano — o equivalente a 6% a 20% da renda dessas pessoas. No extremo oposto, no Egito, o valor cai para US$ 266 a US$ 852; na Índia, fica entre US$ 410 e US$ 1.400.
Biodiversidade paga a conta maior
Contra o que pode parecer intuitivo, a principal fatia dos danos não vem das emissões de carbono, mas da perda de biodiversidade, responsável por 47% a 56% do impacto total. As mudanças climáticas aparecem logo atrás, com 36% a 45%.
Para os autores, o dado desfaz a separação entre crise do clima e crise da natureza: o mesmo padrão de consumo que aquece o planeta também pressiona florestas, rios, solos e espécies.
O coautor Paul Behrens ressalta que esse grupo tem peso que vai além do consumo direto — essas pessoas também movem a economia como investidores, empregadores e formadores de tendências. “Atualmente, os custos são arcados pelos ecossistemas e pelas comunidades que enfrentam secas e poluição”, disse ele.
O estudo chega em um momento crítico: em 2025, o aquecimento global já marcava 1,37°C acima dos níveis pré-industriais e o orçamento de carbono restante para manter 1,5°C ao alcance pode se esgotar em apenas três anos, no ritmo atual de emissões.
Meta superada antes de ser atingida
A comparação com os compromissos internacionais revela a escala do problema. Os danos calculados superam, mesmo no valor mínimo (US$ 1,7 trilhão), a soma dos US$ 993 bilhões anuais comprometidos para ações climáticas até 2035 — meta acordada na COP30, em Belém — com os US$ 675 bilhões estimados para conter a perda de biodiversidade até 2030.
Na prática, o padrão de consumo do topo da pirâmide global já impõe uma conta maior do que aquela que os governos se comprometeram a pagar para enfrentar as crises do clima e da natureza.
Poluidor deve pagar — e mudar
Os pesquisadores defendem o princípio do “poluidor-pagador”, mas fazem uma ressalva central: a ideia não é criar uma licença para destruir mediante pagamento. A cobrança só faria sentido se acompanhada de medidas concretas para reduzir o dano na origem — especialmente no consumo de luxo, com regulação mais rígida e fiscalização efetiva.
Para a autora principal, Inge Schrijver, o problema não está apenas no volume de consumo, mas em escolhas específicas que elevam desproporcionalmente o impacto ambiental.
A dificuldade de traduzir consciência em ação não é exclusividade do topo da pirâmide global: um levantamento anterior mostrou que 43% dos brasileiros não alteraram nenhum hábito de consumo nos últimos doze meses, mesmo sentindo os efeitos das mudanças climáticas no cotidiano.
