A primeira reunião do Federal Reserve sob o comando de Kevin Warsh termina nesta quarta-feira (17) com expectativa de manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75% ao ano — e o mercado de olho em algo maior do que a decisão em si.
O encontro marca o início de uma nova fase para o banco central americano, num cenário de inflação resistente, mercado de trabalho aquecido e pressão do presidente Donald Trump por cortes de juros.
Mais do que os números, investidores buscam entender como Warsh pretende conduzir o Fed nos próximos anos — e se estará disposto a manter postura firme mesmo contra a vontade da Casa Branca.
O que o mercado espera de Warsh
A primeira coletiva de imprensa de Warsh será monitorada com atenção em busca de três sinais: como o novo presidente pretende se comunicar, qual sua tolerância à inflação acima da meta e se estará disposto a contrariar a Casa Branca.
Para Bensaidani, do BNP Paribas, a troca de comando não deve provocar mudanças relevantes imediatas na política de juros. A principal garantia de independência da instituição, na avaliação do analista, continua sendo a estrutura do comitê decisório.
Os analistas Luiza Paparounis e Francisco Lopes, do BTG Pactual, reforçam que a combinação de economia aquecida e inflação elevada exige cautela. Uma postura “excessivamente paciente”, alertam, pode ser lida pelo mercado como sinal de que o Fed está disposto a conviver com preços acima da meta — e por isso a comunicação desta semana tem peso redobrado.
Trump e a pressão por juros menores
Warsh assumiu o comando do Fed em 22 de maio, substituindo Jerome Powell num cenário de atenção máxima sobre os rumos da política monetária americana — e já herdou um ambiente de pressão externa e incerteza nos mercados.
A troca de comando veio após meses de atrito entre Trump e Powell. O republicano argumenta que juros elevados encarecem o crédito e prejudicam a atividade econômica. Em entrevista recente à NBC News, adotou tom aparentemente mais flexível, dizendo querer que Warsh “faça o que quiser” — mas não deixou de defender cortes e classificar eventuais altas como forma de “punir o sucesso” do país.
O CPI americano registrou alta de 4,2% em maio — o ritmo mais acelerado em três anos —, e Trump chegou a declarar publicamente que “ama a inflação”, tornando ainda mais delicado o cenário herdado pelo novo presidente do Fed.
Uma ruptura com o passado?
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, espera que o Fed abandone qualquer sinalização de corte de juros e adote uma postura de “esperar para ver”, condicionando as próximas decisões aos dados econômicos e ao cenário geopolítico.
Para Axel D. Angermann, economista-chefe do Grupo FERI, a reunião desta semana pode ter implicações além da decisão sobre os juros. Ele avalia que a estreia de Warsh pode marcar o início de uma “direção fundamentalmente nova” para o banco central americano.
Warsh é conhecido por seu ceticismo em relação à expansão do balanço do Fed e à atuação mais ativa da instituição para sustentar a economia — postura que Angermann descreve como potencial ruptura com a estratégia adotada por Powell, Ben Bernanke e Janet Yellen nas últimas décadas.
Na avaliação do economista, mais importante do que a decisão desta semana será observar se Warsh começará a colocar essa filosofia em prática já nos primeiros meses à frente do Fed — o que poderia abrir espaço para uma condução menos intervencionista da política monetária americana.
