O Federal Reserve manteve os juros americanos entre 3,5% e 3,75% ao ano nesta quarta-feira (17), em votação unânime que marcou a estreia de Kevin Warsh no comando do banco central dos EUA.
Foi a quarta reunião consecutiva sem alteração na taxa. Com inflação em 4,2% ao ano — mais que o dobro da meta de 2% — e mercado de trabalho ainda aquecido, o Fed não tem espaço para novos cortes.
Para o Brasil, juros altos nos EUA fortalecem o dólar e estreitam a margem do Banco Central para reduzir a Selic.
Economia aquecida e inflação persistente sustentam a pausa
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) confirmou, em comunicado, que a economia americana cresce em ritmo sólido. Os dados recentes sustentam essa avaliação: 172 mil vagas criadas em maio, desemprego em 4,3% e inflação acumulada de 4,2% em 12 meses — mais que o dobro da meta oficial de 2%.
O comitê destacou que os núcleos de inflação permanecem elevados e que parte das pressões vem de choques de oferta, especialmente no setor de energia, afetado diretamente pelo conflito no Oriente Médio. Investimentos empresariais e ganhos de produtividade seguem sólidos, enquanto o mercado de trabalho mantém equilíbrio.
Kevin Warsh, indicado por Donald Trump e empossado em 22 de maio após cerimônia na Casa Branca, assume o Fed com credencial técnica reconhecida: atuou como diretor do banco central no governo Bush e sempre defendeu juros mais altos para conter a inflação quando necessário. Esse histórico ajudou a amenizar os receios sobre eventual interferência política na instituição. Leia mais sobre a chegada de Warsh ao Fed e o que está em jogo para a independência do banco central.
Esta foi a décima segunda decisão de juros desde que Trump assumiu, em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, houve três cortes, mas a sequência de quatro pausas consecutivas sinaliza que o Fed quer evidências concretas de desaceleração dos preços antes de voltar a agir.
Na semana anterior à reunião, o presidente americano disse à NBC News que quer que Warsh “faça o que quiser” — mas voltou a cobrar juros mais baixos e chamou de “punição ao sucesso” qualquer alta em uma economia que considera forte. A inflação de 4,2% citada pelo Fed como justificativa para a pausa é a mesma que levou Trump a declarar, dias antes, que “ama a inflação” — comentário do qual ele depois tentou recuar. Veja o que Trump disse sobre inflação e preços nos EUA.
Juros elevados nos EUA tornam as Treasuries — títulos públicos americanos considerados os investimentos mais seguros do mundo — mais atraentes para investidores globais. O movimento fortalece o dólar e reduz o apetite por ativos em outros mercados, incluindo o Brasil.
Com o dólar mais forte, importações ficam mais caras e pressionam os preços domésticos. O Banco Central brasileiro, por sua vez, tem menos espaço para reduzir a Selic sem ampliar o diferencial de juros e agravar a fuga de capitais. O efeito já aparece nas expectativas: o Boletim Focus registrou a décima segunda elevação consecutiva na projeção de inflação para 2026, chegando a 5,09% — reflexo direto do ambiente de juros altos nos EUA e da pressão cambial sobre o real. Veja como o mercado está reagindo ao cenário externo no Boletim Focus.
O ambiente de incerteza segue elevado. Além do conflito no Oriente Médio, a guerra tarifária promovida pelo governo Trump ao longo de 2025 e as tensões geopolíticas globais continuam impondo riscos à estabilidade dos preços. O Fed sinalizou, no comunicado desta quarta, que permanecerá atento a esses fatores antes de tomar qualquer nova decisão sobre os juros.
