Um composto natural vendido em marketplaces como insumo para “pesquisa laboratorial” está sendo autoadministrado por usuários em forma injetável, sem aprovação regulatória no Brasil ou nos Estados Unidos.
O GHK-Cu — peptídeo formado por aminoácidos ligados ao cobre — ganhou espaço em fóruns de estética e longevidade com promessas de regeneração da pele, cicatrização acelerada e modulação genética.
A Anvisa confirmou que não há nenhum produto com esse princípio ativo registrado no país. A comercialização de substâncias terapêuticas sem regularização é crime pelo Código Penal.
O que a ciência diz — e o que não autoriza
O GHK-Cu é uma molécula encontrada naturalmente no plasma humano. Seus níveis diminuem com a idade: cerca de 200 ng/mL aos 20 anos e aproximadamente 80 ng/mL aos 60 anos. Essa queda alimentou o interesse de pesquisadores por repositores externos.
Revisões científicas publicadas em periódicos como a BioMed Research International associam o composto à estimulação de colágeno, reparo do DNA, redução inflamatória e melhora de sinais visíveis de envelhecimento cutâneo. Um estudo aplicou creme facial com GHK-Cu por 12 semanas em 71 mulheres e registrou redução de rugas, melhora de firmeza e elasticidade da pele.
Pesquisas em animais também apontaram aceleração de cicatrização e aumento da formação de vasos sanguíneos. Estudos preliminares investigaram o peptídeo em relação ao câncer colorretal metastático, com indícios de supressão de genes ligados à progressão tumoral — mas os próprios autores ressaltam que os achados dependem de novos ensaios clínicos.
O problema: toda essa evidência se refere à via tópica ou a experimentos laboratoriais. A dermatologista Rafaela Salvato, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, resume: “Há plausibilidade biológica e estudos mostrando ação em vias de reparo cutâneo, mas a resposta clínica tende a ser gradual, sutil e dependente da formulação, da concentração e da estabilidade do ativo.”
Da pele à seringa: uma mudança de patamar
Quando o GHK-Cu deixa de ser sérum e passa a ser injetado, o cenário muda completamente. “Não se trata mais de cosmético, mas de uma intervenção médica que exige produto regularizado, controle de esterilidade, pureza, dose, estabilidade e estudos de segurança e eficácia”, explica Salvato.
Os riscos listados incluem reação inflamatória local, dor, edema, infecção, abscesso, nódulos, necrose, reação alérgica, contaminação e efeitos sistêmicos imprevisíveis — especialmente quando a origem e o controle de qualidade da substância são desconhecidos.
Anvisa: produto sem registro é crime
Em nota oficial, a Anvisa confirmou que o GHK-Cu e outros peptídeos como BPC-157, TB500, CJC-1295 e Ipamorelina não têm registro no Brasil — nem como medicamentos, nem como cosméticos. “Não existem cosméticos injetáveis. Se o produto for oferecido desta forma, trata-se, com certeza, de produto irregular”, diz o comunicado.
A agência alerta que o uso de termos como “químico experimental” ou “apenas para fins de pesquisa” é frequentemente uma tentativa de enganar o consumidor, transferindo a responsabilidade legal ao comprador. Em anúncios identificados, vendedores exigiam autodeclaração de “pesquisador qualificado” para concluir a venda.
Cristina Schreiber, endocrinologista e diretora do departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da SBEM, avalia que o volume de uso pode configurar um problema de saúde pública. “Não sabemos a real dimensão do uso dessa substância, e isso pode se tornar um problema sério”, alerta. Ela cita riscos de danos hepáticos, contaminação química e efeitos sistêmicos não mapeados.
O cenário regulatório em torno de substâncias estéticas sem segurança comprovada se acirrou em junho, quando o CFM proibiu o PMMA após a morte de uma paciente em São Paulo — e entrou em confronto com a Anvisa, que manteve posição divergente. Leia mais: CFM proíbe PMMA e pressiona Anvisa por banimento total.
