O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, transformou o Congresso em campo de pressão política esta semana: bloqueou as pautas prioritárias do governo Lula e acelerou projetos com impacto estimado em mais de R$ 150 bilhões nos cofres públicos.
A semana de esforço concentrado terminou sem avanço na PEC que reduz a jornada de trabalho e acaba com a escala 6×1 — aprovada há mais de duas semanas na Câmara. Alcolumbre chegou a desmarcar, de última hora, uma reunião com o senador Otto Alencar para discutir a tramitação da proposta.
A condição imposta pelo presidente do Senado para destravar a agenda é direta: ele quer um encontro pessoal com Lula antes de qualquer avanço nas matérias governistas.
Pautas-bomba avançam enquanto governo perde no placar
O impasse vinha se anunciando. O acúmulo de propostas estratégicas sem despacho — e a rejeição do nome de Jorge Messias para o STF, articulada por Alcolumbre — já havia revelado o tamanho da crise duas semanas antes.
Mas foi nesta semana que o confronto saiu do bastidor e chegou ao plenário. Na mesma terça-feira (9) em que cancelou o encontro com Otto Alencar, Alcolumbre recebeu na residência oficial os ministros José Guimarães (Relações Institucionais) e Dario Durigan (Fazenda), que pediram para segurar as pautas-bomba. Os dois saíram confiantes de que seriam ouvidos. Não foram.
A aprovação da renegociação das dívidas rurais — que pode custar até R$ 140 bilhões ao Tesouro — ocorreu na quarta-feira (10) a despeito dos apelos públicos dos ministros, escancarando o alcance das pautas-bomba. A votação foi simbólica, sem registro individual dos votos, o que blindou os senadores da base governista de qualquer constrangimento público.
Previdência e salários também pesam na conta
Além da dívida rural, a CCJ aprovou em votação simbólica uma PEC que garante aposentadoria integral com paridade a agentes de saúde e de combate a endemias. O Ministério da Previdência estima impacto de R$ 99 bilhões, considerando União, estados, DF e municípios.
No fim de maio, a Comissão de Assuntos Sociais havia aprovado em caráter terminativo o projeto que eleva o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13,6 mil por jornada de 20 horas — custo estimado de R$ 8,4 bilhões anuais para a União, sem contar estados e municípios.
Câmara responde com manobra própria
O travamento no Senado gerou reflexos imediatos na Câmara. Com as pautas-bomba avançando e a PEC 6×1 indefinida, o governo optou por manter a urgência constitucional do projeto de redução da jornada de trabalho — medida que passou a travar a pauta da Casa e desagradou o presidente Hugo Motta.
Em acordo fechado em maio, o combinado era que o projeto governista tratasse apenas de carreiras específicas, como profissionais de segurança e da saúde. Mas o avanço da bancada ruralista no Senado mudou o cálculo: o governo avaliou que manter a pauta travada era menos arriscado do que ceder espaço.
A estratégia é votar o projeto na semana que vem, em sessões híbridas, para destravar análises como o Marco Legal da Inteligência Artificial e o aumento do limite de faturamento do MEI. Aliados avaliam que Motta tenta manter visibilidade antes do recesso, com o segundo semestre já prometendo um plenário esvaziado pela corrida eleitoral.
