A partir desta quarta-feira (10), uma sequência de frentes frias, áreas de baixa pressão e ciclones extratropicais vai espalhar chuva intensa pelo Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alertas para tempestades em ao menos 11 estados e o Distrito Federal, com previsão de ventos entre 60 km/h e 100 km/h, acumulados acima de 100 milímetros e possibilidade de granizo.
O cenário é incomum: junho é mês de seca no Centro-Oeste e em grande parte do Sudeste, e os volumes previstos podem superar toda a média histórica mensal antes mesmo da chegada do inverno, em 21 de junho.
Onde a chuva vai ser mais intensa
Os maiores acumulados são esperados no triângulo formado por Mato Grosso do Sul, Paraná e interior de São Paulo. Modelos meteorológicos apontam volumes acima de 50 milímetros em diversas áreas e até 100 milímetros em pontos isolados.
No Paraná e em Santa Catarina, a previsão é de chuva frequente entre quarta (10) e sexta-feira (12), com risco de rajadas e granizo. O Inmet prevê até 50 milímetros em apenas 24 horas no oeste paranaense e catarinense.
Em São Paulo, a instabilidade se concentra no interior, especialmente nas regiões próximas à divisa com Mato Grosso do Sul e Paraná, mas deve avançar gradualmente para outras áreas ao longo da semana. Minas Gerais também entra no radar, com pancadas localizadas mais prováveis no Triângulo Mineiro e no sul do estado.
A instabilidade tem origem em uma cadeia de sistemas que atuam em sequência sobre a América do Sul. Na quarta-feira, uma área de baixa pressão deve se fortalecer entre o Paraguai e o Centro-Oeste, gerando vastas zonas de instabilidade. Na quinta (11), esse sistema deve evoluir para uma nova frente fria associada a um ciclone extratropical no oceano — que, mesmo afastado do litoral, organiza a circulação atmosférica e transporta umidade para o interior do continente, alimentando as nuvens carregadas.
Uma nova rodada de instabilidade está prevista entre os dias 17 e 19 de junho, quando sistema semelhante deve se formar entre o Paraguai e o Sul do Brasil. O episódio se encaixa em um padrão já antecipado: há menos de duas semanas, a OMM confirmou 80% de probabilidade de o El Niño se formar entre junho e agosto — o mesmo fenômeno que tende a intensificar as chuvas exatamente nas regiões agora mais afetadas. Entenda o alerta da OMM sobre o El Niño iminente.
Por que junho é atípico para chuvas
Junho integra a estação seca no Centro-Oeste e em grande parte do Sudeste. Em cidades como Brasília, Goiânia e Cuiabá, a precipitação se concentra entre novembro e março; no inverno, o ar seco e a baixa umidade são a norma. A média histórica de chuva para junho nessas regiões varia entre 20 e 80 milímetros mensais — volume que a previsão atual pode atingir ou superar antes da chegada oficial do inverno.
Segundo a Climatempo, em menos de duas semanas algumas localidades podem registrar mais chuva do que o total acumulado historicamente em todo o mês de junho.
O Inmet emitiu alerta laranja para áreas do Sul, com chuva entre 30 e 60 milímetros por hora ou 100 milímetros ao longo do dia, além de rajadas de 60 km/h a 100 km/h. A combinação com solo já úmido eleva o risco de alagamentos, queda de árvores e interrupções no fornecimento de energia em pontos localizados. A instabilidade deve persistir ao longo da segunda quinzena de junho e avançar até os primeiros dias do inverno.
O cenário reforça o alerta de que o Brasil pode enfrentar um El Niño forte sem uma política estruturada de adaptação climática — risco que especialistas já vinham sinalizando ao governo federal. Veja por que a ausência de política climática permanente preocupa especialistas.
