A Copa do Mundo de 2026, que começa em 11 de junho com o duelo entre México e África do Sul no Estádio Azteca, já é recorde antes mesmo da bola rolar: 48 seleções, 16 cidades e um formato inédito em três países — EUA, Canadá e México.
Essa arquitetura multinacional, aliada a um cenário geopolítico instável, tornou a contratação de seguros comerciais para o torneio a mais complexa da história recente, segundo corretores e seguradoras especializados em contingências ouvidos pela revista The Insurer.
A quase totalidade dessas apólices é negociada em Londres, via Lloyd’s ou o mercado londrino de seguros — hub global para cobertura de grandes eventos esportivos.
Quem compra e o que cobre
Carl Baxter, chefe de contingências da Miller Insurance, classifica os compradores em três categorias principais: a própria FIFA, os comitês organizadores locais e os estádios que sediarão as partidas. Emissoras, prestadores de hospitalidade e hotéis também podem contratar coberturas independentes, segundo Chris Rackliffe, da Arch Insurance International.
As apólices de cancelamento são a base do mercado, cobrindo interrupção ou abandono do evento por fatores inesperados. A elas podem ser adicionadas extensões contra violência política, terrorismo e distúrbios civis — coberturas que, neste ciclo, passaram de opcionais a prioritárias.
“O cenário geopolítico influenciou as decisões de compra para o torneio deste ano”, disse Rackliffe. James Wilson, diretor de riscos especiais da Tokio Marine Kiln, reforçou que patrocinadores e parceiros comerciais demonstram hoje consciência muito maior sobre os perigos da violência política do que em torneios anteriores.
O problema dos três países
Wilson apontou um risco estrutural do formato de 2026: apólices desenhadas com base em um único país podem não responder como esperado quando um incidente em uma nação anfitriã afeta as operações em outra. Essa lacuna legal e geográfica está no centro das negociações mais difíceis do mercado.
A complexidade de coordenar operações em três jurisdições ficou evidente já nas semanas que antecederam a Copa: EUA, México e Canadá precisaram alinhar medidas de controle de viagem em resposta ao surto de ebola no Congo — exatamente o tipo de risco transfronteiriço que passou a exigir coberturas específicas dos underwriters londrinos.
Um estudo conjunto da FIFA e da OMC, publicado em abril de 2025, estimou público de 6,5 milhões de pessoas e impacto de até US$ 40,9 bilhões no PIB global — projeções que pesam diretamente no cálculo de risco das seguradoras.
Riscos cibernéticos: o ponto cego das apólices
Apólices de cancelamento de eventos geralmente excluem riscos cibernéticos. Baxter, da Miller, descreve as ofertas disponíveis no mercado tradicional de contingência como “bastante restritas” — embora alguns mercados ofereçam produtos com maior abrangência, porém com limites reduzidos.
Essa configuração tem raízes na pandemia. Quando a Lloyd’s pressionou o mercado para que coberturas cibernéticas fossem afirmativas a partir de 2021, o setor de contingências optou por excluir o risco por considerá-lo sistêmico demais para ser precificado, ainda sob o impacto da Covid-19.
No terreno comercial, o cenário também preocupa. Um relatório de maio de 2026 da associação americana de hotéis indicou que 80% dos hoteleiros nas cidades-sede registram reservas abaixo das previsões iniciais — reflexo do custo elevado dos ingressos e das incertezas geopolíticas que afastam torcedores.
Para o mercado segurador, a Copa 2026 funciona como laboratório: a forma como a demanda por cobertura responderá a riscos políticos e transfronteiriços em tempo real deve redesenhar o modelo de apólices para grandes eventos globais nos próximos anos.
