O governo dos Estados Unidos publicou nesta sexta-feira (5) no Federal Register a designação oficial do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
O documento é assinado pelo secretário de Estado Marco Rubio e entra em vigor imediatamente, com efeitos que vão do congelamento de ativos à proibição de transações financeiras entre empresas americanas e as duas facções.
A decisão encerra uma disputa diplomática de mais de um ano entre Washington e Brasília — e é tratada pelo governo Lula como a maior derrota brasileira na relação com a administração Trump desde o tarifaço de 2025.
Uma linha do tempo de mais de um ano
A classificação não surgiu de uma hora para outra. O plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou tração a partir do início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025, e foi construído com a participação de assessores do Departamento de Estado enviados ao Brasil para coletar informações com promotores especializados em crime organizado.
Em maio de 2025, o então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, e o assessor Ricardo Pitta vieram ao Brasil. Pitta chegou a se reunir com a família Bolsonaro, que já defendia abertamente a medida. O movimento foi monitorado pelo Planalto, que via a possibilidade como potencial interferência norte-americana na política brasileira de segurança pública.
O ponto de virada veio em 28 de maio, um dia depois de Flávio Bolsonaro encerrar viagem a Washington, onde se encontrou com Trump, J.D. Vance e Marco Rubio. O senador disse ter defendido, para toda a equipe do governo norte-americano, a classificação das facções como terroristas.
A publicação no Federal Register oficializa o que havia sido anunciado em 28 de maio — quando os EUA classificaram PCC e CV como terroristas sem avisar o governo Lula, que soube pela imprensa.
Além da designação principal, uma segunda decisão assinada por Rubio permite o congelamento imediato de bens e ativos sob jurisdição americana vinculados às facções — sem aviso prévio, para evitar fuga de recursos. Ficam também vedadas transações com pessoas ou entidades que forneçam apoio material, financeiro ou logístico ao PCC e ao CV.
Lula reage e governo monitora risco ao sistema financeiro
O presidente Lula não poupou palavras após a oficialização. “Quer combater o crime organizado? Entregue os nossos que tão lá nos EUA. Nós não aceitamos ser tratados como moleque”, disse o presidente, acusando Flávio Bolsonaro de pedir “intervenção americana no Brasil” e de “trair a nossa pátria”.
O governo publicou nota chamando de “deplorável” a atuação da família Bolsonaro e classificando os envolvidos como “falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”.
Nos bastidores, integrantes do Planalto reconhecem que a ala bolsonarista articulou a decisão para criar constrangimento político: forçar o governo a se opor à medida e depois ser acusado de proteger facções criminosas — manobra que ganha peso eleitoral a menos de um ano das eleições de 2026.
Além da retórica, o governo apontou consequências concretas da medida: riscos ao compartilhamento de inteligência policial entre os dois países e possíveis impactos sobre o sistema financeiro, incluindo o Pix.
A preocupação central do Planalto é que bancos e empresas brasileiros possam ser sancionados por vínculos comerciais involuntários com as facções. Diante disso, o governo sinalizou que vai modular sua resposta à decisão para evitar desgaste adicional junto à opinião pública nos meses que antecedem o pleito.
