O ministro da Defesa, José Múcio, se reuniu nesta quarta-feira (8) com Elbridge Colby, subsecretário de Defesa dos Estados Unidos para Assuntos de Política, em Cusco, no Peru. O encontro foi solicitado pela parte americana e aconteceu à margem da XVII Conferência de Ministros de Defesa das Américas (CMDA).
A pauta oficial foi a cooperação bilateral no combate ao narcotráfico. O pano de fundo é a tensão diplomática gerada pela decisão de Washington de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — medida em vigor desde 5 de junho.
Colby é o principal assessor do secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, para política de defesa e relações internacionais. Segundo nota do Ministério da Defesa, o encontro transcorreu em “clima de cordialidade e com convergência de opiniões”.
Múcio embarcou para o Peru na terça-feira (7). Antes de partir, reuniu-se com o presidente Lula no Palácio da Alvorada — um sinal de alinhamento interno do governo federal antes do contato direto com a delegação americana.
Sanções e alerta de intervenção militar
Na semana passada, o governo Trump deflagrou a primeira rodada de sanções econômicas vinculadas à designação terrorista: dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma portuguesa foram alvos do Departamento do Tesouro norte-americano por suspeita de vínculos com o PCC.
O encontro foi solicitado pelos EUA poucos dias depois de o Itamaraty alertar formalmente ao Congresso que a classificação do PCC e do CV como terroristas poderia abrir caminho para o uso de força militar americana no Brasil — alerta que o Tropiquim detalhou em reportagem anterior.
No mesmo dia em que Múcio se reunia com Colby em Cusco, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovava a convocação obrigatória do chanceler Mauro Vieira para explicar o teor do documento enviado ao Congresso — assinado pelo próprio chanceler e que cita por duas vezes o risco de ação militar.
O Departamento de Estado classificou como “absurda” a avaliação do Itamaraty sobre o risco de intervenção militar, afirmando que Washington atua dentro de sua própria legislação para combater grupos criminosos estrangeiros. A posição americana reforça a leitura de que as designações terroristas são instrumentos jurídicos — e não prelúdio de operação militar. O desconforto brasileiro, porém, é visível: foi o próprio chanceler Mauro Vieira quem assinou o documento que levanta essa hipótese.
Peso geopolítico da pauta
A agenda do narcotráfico no encontro Múcio-Colby vem carregada de implicações estratégicas. As sanções do Tesouro americano e a designação terrorista integram uma estratégia mais ampla de dominância dos EUA nas Américas, com o PCC como peça central do esforço de pressão regional.
O fato de Washington ter solicitado a bilateral com o Brasil no fórum da CMDA — conferência que reúne representantes de todo o continente a cada dois anos — indica que os EUA querem manter canais abertos com Brasília ao mesmo tempo em que intensificam a pressão sobre as organizações criminosas brasileiras.