O governo brasileiro divulgou nota oficial nesta terça-feira (2) rebatendo a proposta norte-americana de novo tarifaço e classificando as medidas unilaterais como “injustificáveis”.
O documento responde à conclusão preliminar do escritório de comércio dos EUA (USTR), que aponta práticas comerciais desleais do Brasil em investigação aberta sob a Seção 301.
Em coletiva de imprensa paralela, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a proposta como “injusta”.
A nota é a resposta direta à conclusão da investigação Seção 301 anunciada na segunda-feira (1º), quando o USTR propôs tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, citando seis áreas de crítica — do PIX à propriedade intelectual.
Números que contradizem a narrativa americana
Para rebater as acusações, o Executivo recorre a estatísticas do próprio governo dos EUA: nos últimos 15 anos, os americanos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil. Só em 2025, o saldo chegou a US$ 40,52 bilhões considerando bens e serviços.
A nota ressalta que 76% das importações americanas chegaram ao Brasil sem imposto de importação no ano passado, com alíquota média efetiva de apenas 3,1% sobre produtos norte-americanos. Oito dos dez principais itens importados dos EUA — incluindo petróleo, aeronaves e gás natural — tiveram tarifa zero.
O texto registra que, no primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu ao menor nível histórico: 9,4% — dado usado para argumentar que as tarifas já corroem a parceria comercial bilateral.
Os seis temas investigados pelo USTR
A investigação abrangeu comércio digital e pagamentos eletrônicos (incluindo o PIX), tarifas preferenciais do Mercosul, leis anticorrupção, proteção de propriedade intelectual, etanol e desmatamento. O governo diz ter apresentado “farta documentação” nas reuniões técnicas comprovando que nenhuma prática viola normas internacionais vigentes.
A nota responsabiliza diretamente a família Bolsonaro pelo início da disputa. O governo afirma que a investigação “teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro” — e cita a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington como parte das articulações que teriam “sabotado” o diálogo entre os dois governos. Lula usou o mesmo termo durante evento em Goiás na mesma terça-feira.
Apesar do tom confrontador, o texto sinaliza que negociações tarifárias seguem em curso, conforme acordo firmado pelos presidentes Lula e Trump na reunião de Washington em 7 de maio. O prazo para encerrar a investigação da Seção 301 sem imposição de medidas está fixado em 15 de julho.
Ameaça de reciprocidade
Caso as tarifas se tornem efetivas, o Brasil deixa clara sua posição: o Executivo “se reserva o direito” de acionar a Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para adotar contramedidas. O governo afirma que “adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos” à economia, empregos e renda dos brasileiros.
O comunicado encerra com apelo contra “traidores da pátria” — linguagem incomum em notas diplomáticas que reflete o grau de politização da disputa comercial entre os dois países.
