O presidente Lula afirmou, em cerimônia no Palácio do Planalto na última quarta-feira (22/07), que o Brasil não vai deixar a mesa de negociação para tentar reverter as tarifas de 25% aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Para analistas ouvidos pela reportagem, porém, o impasse vai muito além da balança comercial: as tarifas seriam usadas por Washington para afirmar influência geopolítica na região e conter o avanço da China.
Outros países também sofrem mesmo com acordo fechado
Reino Unido, Japão e a União Europeia assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos nos últimos meses e fizeram concessões em troca de mais previsibilidade comercial, mas ainda convivem com incertezas, como o recente anúncio de tarifas ligadas ao combate ao trabalho forçado. O Canadá, que fechou um amplo acordo com Trump em 2025, foi atingido neste mês por um novo tarifaço e acusou Washington de violar o tratado — ainda assim, o premiê Mark Carney disse que pretende intensificar as negociações comerciais com os americanos.
O professor Daniel Vargas, da FGV Direito Rio, avalia que as tarifas contra o Brasil têm dois objetivos políticos: aproximar o país de uma afinidade ideológica com Washington, com possível impacto nas eleições de 2026, e desestimular relações comerciais mais próximas com a China. “É uma tarifa cujo cálculo tem a expectativa de afirmar a autoridade americana e a sua influência geopolítica sobre a região”, diz o professor.
Já Carlos Gustavo Poggio, do Berea College, atribui a medida a um viés ideológico do governo Trump, puxado pelo secretário de Estado Marco Rubio, e não a uma estratégia estruturada contra a China. “O governo Trump não pensa dessa forma porque não existe estratégia, existem impulsos e emoção. Não é algo coerente”, afirma.
Sem margem para concessões, dizem especialistas
O analista geopolítico Gustavo Blum, pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute, afirma que o Brasil tentou negociar, mas esbarrou na lógica maximalista de Trump, que deixa pouco espaço para concessões sem sacrificar setores estratégicos da economia brasileira. Para ele, o tarifaço também pode produzir efeito reverso ao pretendido pelos Estados Unidos: cita o telefonema recente entre Lula e o líder chinês Xi Jinping, no qual as partes discutiram um possível acordo entre o Mercosul e a China.
Poggio pondera que não é possível comparar diretamente a situação brasileira à de países como Reino Unido, Japão e Canadá, que mantêm relação geopolítica e econômica mais relevante com os americanos. Na avaliação do professor, o Brasil dificilmente teria uma margem real de negociação, já que as tarifas funcionam como instrumento de pressão por alinhamento unilateral. “Qualquer negociação com Trump é muito efêmera. Qualquer governo futuro pode anulá-la porque não tem nada que passa pelo Congresso”, diz. A repercussão do episódio já rendeu outros desdobramentos, como o Planalto acusar Trump de usar o tarifaço para beneficiar o senador Flávio Bolsonaro e o governo brasileiro afirmar que já promoveu mais de 30 tentativas de negociação com Washington.