As contas do setor público consolidado fecharam abril com superávit primário de R$ 24,6 bilhões, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira (29). O resultado foi quase o dobro do registrado em abril de 2025, quando o saldo positivo somou R$ 14,2 bilhões.
Ainda assim, a dívida pública avançou 0,4 ponto percentual e chegou a 80,4% do PIB — o equivalente a R$ 10,44 trilhões —, o maior patamar desde junho de 2021.
No acumulado de janeiro a abril, o superávit primário totalizou R$ 31,2 bilhões, ou 0,72% do PIB, resultado pressionado pela antecipação no pagamento de precatórios pela Secretaria do Tesouro Nacional.
Por que a dívida sobe mesmo com superávit?
O superávit primário mede o resultado das contas públicas sem considerar o pagamento de juros. Quando os juros entram no cálculo — no chamado resultado nominal —, o cenário se inverte: o setor público registrou déficit de R$ 60,1 bilhões apenas em abril.
No acumulado de 12 meses até abril, o déficit nominal chegou a R$ 1,22 trilhão, ou 9,4% do PIB. As despesas com juros somaram R$ 1,1 trilhão no período (8,4% do PIB), pressionadas pela taxa Selic de 14,5% ao ano.
Em março, o Banco Central já havia registrado dívida de 80,1% do PIB após um déficit primário de R$ 80,7 bilhões no setor público consolidado — trajetória que abril apenas aprofundou.
Governo federal acumula resultado bem abaixo de 2025
No recorte do governo federal, o superávit acumulado de janeiro a abril ficou em R$ 9 bilhões — muito abaixo dos R$ 68,6 bilhões registrados no mesmo período de 2025. A queda está associada principalmente à antecipação no pagamento de precatórios pela Secretaria do Tesouro Nacional.
O fraco desempenho acumulado tem raiz em março, quando as contas federais registraram o pior déficit primário para o mês em 30 anos — R$ 73,8 bilhões —, causado pela mesma antecipação de precatórios.
Pelo FMI, dívida chega a 93,1% do PIB
No critério adotado pelo Fundo Monetário Internacional, que inclui os títulos públicos na carteira do Banco Central, o endividamento brasileiro em abril chegou a 93,1% do PIB — patamar superior à média dos países da Zona do Euro e bem acima das nações emergentes e da América do Sul.
A meta do governo para 2026 prevê um saldo negativo de 0,25% do PIB, equivalente a cerca de R$ 34,3 bilhões. O desempenho acumulado ainda pode se deteriorar ao longo do ano.
Projeção aponta dívida próxima de 100% do PIB em 2035
No acumulado do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde janeiro de 2023, a dívida pública avançou 8,7 pontos percentuais do PIB. O crescimento reflete a expansão dos gastos públicos e o peso crescente das despesas com juros.
O crescimento das despesas projetado em 3,2 vezes acima do limite do arcabouço fiscal para 2026 ajuda a explicar por que analistas estimam que a dívida pode chegar a 99,4% do PIB em 2035 — pelo conceito brasileiro. Pelo critério do FMI, o endividamento estaria próximo de 110% do PIB no mesmo período.
Especialistas alertam que, sem corte robusto de despesas, o arcabouço fiscal — aprovado em 2023 como substituto ao teto de gastos — ficará insustentável e precisará ser abandonado ou reformulado nos próximos anos. O cenário aponta para expansão contínua da dívida e eventual elevação das taxas de juros cobradas ao setor produtivo.
O nível de endividamento pelo critério do FMI é monitorado de perto pelas agências de classificação de risco, que utilizam esse indicador para definir a nota de crédito do Brasil — referência direta para investidores internacionais na precificação do risco-país.
