O setor público brasileiro encerrou maio com um déficit primário de R$ 56,1 bilhões, resultado que empurrou a dívida bruta para 81,1% do PIB — o maior nível desde maio de 2021, segundo dados do Banco Central divulgados nesta terça-feira (30).
A piora em relação ao ano passado foi acentuada: em maio de 2025, o rombo tinha sido de R$ 33,7 bilhões. No acumulado de janeiro a maio deste ano, o déficit primário chega a R$ 24,9 bilhões (0,45% do PIB), revertendo o superávit de R$ 69,1 bilhões registrado no mesmo período de 2025.
A dívida consolidada do setor público equivale agora a R$ 10,62 trilhões.
Despesas superam receitas mesmo com arrecadação recorde
Mesmo com a arrecadação federal batendo recorde histórico em maio, o déficit de R$ 56,1 bilhões escancarou que o problema das contas públicas está no lado das despesas, não das receitas. A arrecadação de maio somou R$ 266,8 bilhões — alta real de 10,7% — e ainda assim não foi suficiente para evitar o rombo.
Uma das razões para a piora no resultado acumulado foi a antecipação do pagamento de precatórios pela Secretaria do Tesouro Nacional neste ano. Somente o governo federal acumula um déficit de R$ 46,1 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026, contra um superávit de R$ 31,2 bilhões no mesmo período de 2025.
Meta fiscal descumprida antes da metade do ano
O arcabouço fiscal — conjunto de regras que substituiu o teto de gastos em 2023 — prevê que o saldo negativo das contas públicas não ultrapasse 0,25% do PIB (cerca de R$ 34,3 bilhões) em 2026. Com 0,45% do PIB já no vermelho até maio, o governo ultrapassa o limite permitido antes mesmo do segundo semestre.
Especialistas alertam que, sem um corte robusto de despesas, o arcabouço fiscal terá de ser alterado ou abandonado nos próximos anos. As regras, no formato atual, já são classificadas como insustentáveis por analistas do setor público.
Dívida avança 9,4 pontos percentuais no governo Lula
Desde o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), há pouco mais de três anos, a dívida bruta avançou 9,4 pontos percentuais do PIB. O crescimento está ligado principalmente ao aumento de gastos públicos e às despesas com juros — que somaram R$ 1,1 trilhão (8,5% do PIB) nos doze meses até maio de 2026.
Pelo critério do FMI, dívida já supera 94% do PIB
Quando se adota o conceito utilizado internacionalmente pelo Fundo Monetário Internacional — que inclui os títulos públicos na carteira do próprio Banco Central —, o endividamento brasileiro sobe para 94,3% do PIB em maio. Esse patamar supera a média dos países da Zona do Euro e está bem acima das demais nações emergentes e da América do Sul.
No início de junho, o FMI já havia alertado que a dívida brasileira exigiria reformas fiscais profundas — usando o critério internacional, o endividamento já ultrapassava 93% do PIB em abril, antes de subir ainda mais em maio. Leia a análise completa sobre o alerta do FMI ao Brasil.
Projeção de 100% do PIB até 2035
Analistas do mercado financeiro estimaram, na semana passada, que a dívida pública brasileira pode atingir 100% do PIB em 2035 pelo conceito brasileiro. Pelo critério do FMI, o número seria ainda mais elevado: acima de 110% do PIB.
No conceito nominal — que incorpora os juros da dívida pública —, o déficit acumulado em doze meses até maio chegou a R$ 1,26 trilhão (9,62% do PIB). Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o custo do endividamento segue pressionando os resultados fiscais. Esse indicador é acompanhado de perto pelas agências de classificação de risco ao definir a nota de crédito do Brasil.
