Diálogos interceptados pela Polícia Federal e enviados ao Supremo Tribunal Federal mostram que Daniel Vorcaro chamou Paulo Henrique Costa de “gigante” em 18 de março de 2025.
A mensagem foi enviada dez dias antes de o conselho do BRB aprovar a aquisição do Banco Master — negócio que acabaria barrado. Na mesma época, a PF aponta que os dois negociavam ao menos seis imóveis avaliados em cerca de R$ 140 milhões.
Costa foi preso em 16 de abril. Vorcaro está detido desde 4 de março. Ambos buscam acordos de delação premiada.
Imóveis como moeda de troca nas negociações
A Polícia Federal aponta que Paulo Henrique Costa negociou ao menos seis propriedades pertencentes a Vorcaro enquanto exercia a presidência do BRB — dois imóveis em Brasília e quatro em São Paulo. O conjunto é avaliado em cerca de R$ 140 milhões e, segundo a investigação, teria servido como contrapartida para facilitar os negócios entre os dois bancos.
Em novembro de 2024, Vorcaro orientou uma corretora a procurar apartamentos para Costa. A corretora encontrou um imóvel decorado no 13º andar de um edifício no Itaim Bibi, em São Paulo, avaliado em R$ 45 milhões. Vorcaro autorizou as negociações e, diante de dificuldades para agendar a visita, sugeriu que a corretora levasse Costa ao próprio apartamento que possuía no mesmo condomínio.
Após a visita, Costa escreveu a Vorcaro: “Esse é um projeto muito importante e, como vc bem fala, estamos juntando as nossas vidas.” O banqueiro respondeu: “Que bom que gostaram! Vamos em frente lá.”
A ‘necessidade de caixa’ em paralelo aos imóveis
As mensagens também mostram Costa demonstrando disposição em viabilizar aportes do BRB ao Master. Em 5 de novembro de 2024, ele perguntou diretamente a Vorcaro: “Qual é a sua necessidade de caixa? Vc pode me enviar um cronograma tentativo?” — trecho que a PF interpreta como referência às negociações paralelas sobre imóveis.
Na mesma conversa, Costa se ofereceu para estruturar a compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB. “Faço isso em paralelo ao que estou fazendo com o que já recebemos”, escreveu. Vorcaro encerrou a troca com: “Estou pronto pra amanhã sentarmos. Amanhã vou levar o adv. Vamos matar tudo.”
Para a PF, os diálogos reforçam a participação de Costa na chamada engenharia criminosa do Master. A operação de compra pelo BRB — 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total — foi anunciada e posteriormente barrada.
Paulo Henrique Costa está preso desde 16 de abril no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda. É suspeito de não seguir práticas de governança e de ter permitido negócios com o Master sem lastro — sem garantias que sustentem seu valor.
Em nota, a defesa de Costa afirmou que “havia um projeto conjunto, em que BRB e Master estavam firmando parceria relevante. Paulo era o Presidente do BRB. É uma mensagem em contexto de operação.”
Vorcaro, por sua vez, está detido desde 4 de março na Superintendência da PF em Brasília. Além de crimes financeiros, é investigado por envolvimento em pagamentos indevidos a agentes públicos e na montagem de uma suposta milícia privada para monitorar autoridades e perseguir jornalistas.
As negociações de delação premiada seguem em aberto. A PF rejeitou a proposta inicial de Vorcaro por omissão de nomes-chave e conteúdo considerado insuficiente, mas a Procuradoria-Geral da República pode analisar a proposta de forma independente. Após a recusa, Vorcaro elevou o valor a ser devolvido de R$ 40 bilhões para R$ 60 bilhões, embora a PGR tenha condicionado qualquer avanço à reformulação completa do roteiro de colaboração.