O Brasil registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024 — 77% de todas as vítimas de assassinato no país, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26).
A média chega a 89,9 mortes por dia, ou uma a cada 16 minutos. A taxa de homicídios entre negros é 170,3% superior à de não-negros, e uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada no país.
Mapa da desigualdade racial nas mortes violentas
A análise regional revela concentração das maiores taxas nas regiões Norte e Nordeste. O Amapá registrou a maior taxa: 56,8 mortes por 100 mil habitantes negros, seguido de Alagoas (48,9), Pernambuco (47,6) e Bahia (47,1). São Paulo e Santa Catarina apresentam os menores índices, com 8 e 10,3, respectivamente.
Em Alagoas, uma pessoa negra tem 23,3 vezes mais chance de ser assassinada do que uma branca — o pior risco relativo do país. No Amapá, esse risco é 16,7 vezes maior; em Sergipe, 6,8 vezes. A exceção na série é Roraima, único estado onde o risco relativo foi inferior a 1.
Na série histórica de onze anos, entre 2014 e 2024, foram assassinadas 435.551 pessoas negras no Brasil, contra 132.156 não negras. Ainda que os homicídios tenham caído nos dois grupos, o ritmo foi desigual: entre não negros, a redução foi de 38,9%; entre negros, de apenas 21,7%.
Mulheres negras e população LGBTI+
A violência letal persiste com mais força entre mulheres negras: a taxa de homicídio é 66,7% superior à das mulheres não negras. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou 399 feminicídios — o pior resultado desde o início do monitoramento, em 2015, cenário que se aprofunda quando cruzado com o recorte racial.
O Atlas também registra crescimento das notificações de violência contra a população LGBTI+. Em 2024, foram mais de 15.800 vítimas: 10.250 casos entre homossexuais e bissexuais (alta de 5,5%) e 5.575 entre pessoas trans e travestis (alta de 2,5%). Na última década, o aumento acumulado entre homossexuais e bissexuais chegou a 212,7%.
A especialista Juliana Brandão observa que o crescimento dos registros pode refletir tanto melhora no sistema de notificação quanto intensificação real da violência — especialmente entre bissexuais, grupo com alta acumulada de 781% em dez anos. Entre travestis, pessoas negras representam 67% das vítimas; entre mulheres trans, 61%.
Idosos: quedas superam homicídios como principal causa de morte violenta
O relatório documenta crescimento expressivo da violência contra idosos. Os registros no sistema de saúde chegaram a 30.097 casos em 2024 — alta de 226,3% em relação ao histórico. A taxa de homicídios entre maiores de 60 anos foi de 5,9 por 100 mil habitantes, correspondendo a 2.007 mortes.
Mas a queda já supera o assassinato como principal causa de morte externa nessa faixa etária. Desde 2000, enquanto os homicídios de homens idosos recuaram 6,6%, as mortes por queda cresceram 345%. Entre mulheres, os assassinatos caíram 2,8%, mas os óbitos por queda saltaram 630%.
“O Brasil não está preparado para o envelhecimento da população”, afirmou Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas. Ele projeta que, nos próximos 15 anos, o número de quedas deve superar o de homicídios em toda a população — não apenas entre idosos.
O mesmo relatório aponta que a violência sexual responde por 45,5% de todas as notificações contra meninas de 10 a 14 anos — outro capítulo de um diagnóstico que mapeou sistematicamente as populações mais vulneráveis do Brasil.
