O papa Leão XIV pediu perdão nesta segunda-feira (25) pelo papel direto da Santa Sé na legitimação da escravidão — uma responsabilidade que nenhum pontífice havia reconhecido publicamente até hoje.
O pedido foi feito na primeira encíclica do pontificado, Magnifica Humanitas, e vai além das desculpas anteriores: desta vez, a Igreja reconhece o papel de seus próprios papas em autorizar soberanos europeus a subjugar e escravizar povos não cristãos.
Leão XIV classificou esse passado como uma “ferida na memória cristã” e alertou que a demora de séculos em condenar a escravidão não pode ser apagada pelas diferenças de contexto histórico.
Bulas papais que autorizaram o escravizamento
O ponto central do reconhecimento é a bula Dum Diversas, emitida em 1452 pelo papa Nicolau V, que concedeu ao rei de Portugal o direito de “invadir, conquistar, combater e subjugar” sarracenos, pagãos e outros infiéis, reduzindo-os à “escravidão perpétua”.
Três anos depois, o Romanus Pontifex consolidou essas permissões. Juntos, os dois documentos formaram a base da chamada Doutrina da Descoberta — teoria usada por séculos para legitimar a tomada colonial de terras na África e nas Américas. As permissões foram confirmadas ou renovadas pelos papas Calisto III, Sisto IV e Leão X.
Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta, mas nunca anulou as bulas em si. A Santa Sé argumenta que um documento posterior, o Sublimis Deus, de 1537, já reafirmava que povos indígenas não deveriam ser escravizados.
Leão XIV lembrou que seu antecessor de mesmo nome, Leão XIII, foi o primeiro a condenar explicitamente a escravidão — em 1888, quando a maioria dos países já havia abolido a prática. “Antes disso, até instituições da própria Igreja possuíam escravos”, escreveu o pontífice na encíclica.
Na mesma encíclica, Leão XIV alertou que a Igreja precisa condenar com firmeza a exploração ligada à revolução tecnológica digital “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro”. O documento abrange ainda a proibição de sistemas de IA para decisões letais e críticas à concentração de poder tecnológico em poucas transnacionais — sinalizando que o Vaticano quer evitar repetir os erros de omissão do passado.
Ancestralidade e pedidos anteriores ao papado
O gesto ganha dimensão simbólica quando se considera a história familiar de Leão XIV. Pesquisa genealógica publicada por Henry Louis Gates Jr. identificou 17 ancestrais americanos do papa que eram negros — registrados em documentos oficiais como mulatos, negros, crioulos ou pessoas livres de cor. Sua árvore genealógica inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
Como primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV responde a décadas de pedidos de católicos negros americanos, ativistas e estudiosos que exigiam o reconhecimento do papel direto dos papas no comércio colonial de seres humanos — não apenas o de cristãos em geral.
Papados anteriores já haviam feito movimentos nessa direção. Em 1985, João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico praticado por cristãos, mas sem citar o envolvimento direto dos pontífices. Em 1992, na Ilha de Gorée, no Senegal — um dos maiores centros do tráfico na África Ocidental —, chamou a escravidão de “tragédia de uma civilização que se dizia cristã”.
No mês passado, em visita a Angola, Leão XIV já havia rezado em um santuário em área que foi importante centro do tráfico colonial, mencionando o “sofrimento e a grande dor” dos angolanos ao longo dos séculos, mas sem citar a escravidão diretamente. A encíclica desta segunda representa o passo mais explícito desde o início do pontificado.
