O papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira (25) sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), com quase 43 mil palavras. O documento pede regulação internacional da inteligência artificial e condena a delegação de decisões militares a sistemas automatizados.
No texto, o pontífice é taxativo: “não é permitido confiar decisões letais ou irreversíveis a sistemas artificiais.” A encíclica, formalmente assinada na última sexta-feira (15), também denuncia a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucas empresas privadas transnacionais — e deve gerar novo ponto de atrito com o presidente americano Donald Trump.
IA, guerra e o poder das big techs
Na encíclica, Leão XIV critica o fato de que os principais motores do desenvolvimento tecnológico são entidades privadas, muitas vezes transnacionais, “dotadas de recursos e capacidade de intervenção que superam os de muitos governos.” Para o papa, quando esse poder se concentra em poucas mãos, “tende a tornar-se opaco e a escapar à supervisão pública, aumentando o risco de formas distorcidas de desenvolvimento que dão origem a novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades.”
O documento dedica seção específica ao uso da IA em conflitos armados. Leão XIV alerta que a revolução digital está mudando a natureza das guerras, criando formas híbridas que incluem ciberataques, manipulação de informações e automação de decisões estratégicas. O papa adverte que a tecnologia pode “diminuir o limiar para o uso da força” e fomentar uma cultura que reduz o inimigo a estatísticas e vítimas a “dano colateral.”
O pontífice condena ainda o crescimento do complexo militar-industrial como “característica definidora do atual cenário político”, afirmando que a estreita ligação entre interesses econômicos, aparato militar e decisões políticas transforma a guerra em extensão natural da política e o mercado de armamentos em “força motriz autônoma.”
Para enfrentar esses riscos, o texto defende marcos legais robustos, supervisão independente e usuários informados. “Não basta invocar a ética no abstrato”, escreve o papa. A propriedade dos dados, segundo o documento, não pode ser deixada exclusivamente em mãos privadas. A preocupação do pontífice com IA e desinformação capazes de corroer processos democráticos encontra eco no Brasil, onde o TSE já aprovou regras proibindo conteúdos gerados por IA nas 72 horas que antecedem as eleições de 2026.
Trabalho, democracia e crianças na era digital
A encíclica também aborda as transformações no mundo do trabalho causadas pela automação. Leão XIV adverte que a convergência da automação, da robótica e da IA está “transformando rapidamente a própria estrutura do trabalho” e que as novas formas de trabalhar “não são necessariamente melhores.” Para o papa, “a busca por maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente empregos” — e a solução passa por cooperação internacional, não pela “mão invisível” do mercado.
Sobre democracia, o texto é contundente: “a indiferença à verdade leva, lenta mas seguramente, a uma descida ao totalitarismo.” Leão XIV condena o “preocupante ressurgimento da guerra como instrumento da política internacional” e critica uma cultura de poder que normaliza conflitos e alimenta um “falso realismo” que insiste não haver alternativas.
O documento também se dirige às famílias, reconhecendo que “é difícil para os pais, por si só, resistirem à influência de modelos de negócios que monetizam a atenção e o tempo” — argumento que a União Europeia igualmente mobiliza para avançar com legislação que pode banir menores das redes sociais. A encíclica pede uma aliança entre formuladores de políticas, instituições educacionais e famílias para proteger crianças e adolescentes do ambiente digital.
Apelar por cautela na adoção da IA, conclui o papa, “não significa opor-se ao progresso; pelo contrário, é um exercício de cuidado responsável para com a família humana.”
