O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu nesta terça-feira (19) que a liquidação do banco Master não representou risco ao sistema financeiro, mas admitiu que o uso de dinheiro de fraudes pelo banqueiro Daniel Vorcaro “chama a atenção”.
Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, Galípolo classificou o Master como banco de “terceira divisão” para justificar a ausência de risco sistêmico — mesmo enquanto escândalos políticos e financeiros envolvendo Vorcaro se multiplicam.
A audiência pública foi convocada para que Galípolo respondesse pela liquidação extrajudicial do Master, determinada em novembro do ano passado após indícios de irregularidades. O BC defendeu que, ao identificar sinais de práticas inadequadas em uma instituição financeira, o órgão passa a acompanhar a situação “bem mais de perto”.
A sessão reuniu senadores dispostos a questionar uma reunião fora de agenda entre Galípolo e Vorcaro, além da suposta omissão do BC enquanto os ativos do Master saltavam de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões — trajetória que antecedeu a intervenção da autoridade monetária.
Teia de repasses políticos
Enquanto Galípolo falava no Senado, o nome de Vorcaro permanecia associado a uma série de repasses que constrangem a cena política. Na semana passada, veio à tona que o banqueiro pagou R$ 61 milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, após negociações com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que cobrava os valores e pressionava pelos pagamentos.
A Polícia Federal identificou ainda indícios de que Vorcaro bancou ao menos três viagens internacionais do senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas — apontado pela PF como destinatário central das vantagens indevidas, em esquema que incluía pagamentos mensais e emendas parlamentares redigidas pelo próprio banco.
O Banco Master também realizou pagamentos superiores a R$ 80 milhões ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Silêncio sobre o filme e pressão por CPMI
Na audiência, Galípolo não mencionou diretamente o financiamento ao filme sobre Bolsonaro — lacuna que alimenta o debate político em torno do caso. Os áudios em que Flávio Bolsonaro chama Vorcaro de “irmão” e cobra R$ 134 milhões pela produção reacenderam a pressão por investigação parlamentar: uma CPMI do Master segue travada pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre.
O presidente do BC também foi questionado sobre visitas realizadas por Vorcaro ao Banco Central antes de sua prisão e sobre a possível participação de ex-servidores da instituição nas irregularidades investigadas. Galípolo respondeu que a supervisão bancária intensifica o monitoramento quando surgem evidências de condutas inadequadas, sem detalhar os casos específicos envolvendo o Master.
Daniel Vorcaro foi preso em operação que investigava a emissão de títulos de crédito falsos. O banco Master tinha ativos estimados em R$ 82 bilhões no momento da liquidação, tornando-se um dos maiores casos de intervenção regulatória recente no setor financeiro nacional.
