A Organização Mundial de Saúde (OMS) avisou nesta terça-feira (12) que novos casos de hantavírus ainda podem aparecer nas próximas semanas, apesar do encerramento da operação de repatriação dos ocupantes do cruzeiro Hondius em Tenerife, na Espanha.
O diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus cobrou que todos os países adotem as diretrizes da entidade — incluindo quarentena de 42 dias a partir de 10 de maio — mas reconheceu que a OMS não tem poder de imposição.
O navio acumula sete casos confirmados, um provável e três mortes entre seus cerca de 150 passageiros e tripulantes.
42 dias de vigilância: o que a OMS recomenda
Ao lado do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, em Madri, Tedros detalhou que o protocolo da OMS prevê “acompanhamento ativo” dos repatriados por 42 dias a partir de 10 de maio — o que estende o período de alerta até 21 de junho. O monitoramento pode ocorrer em domicílio ou em centro de quarentena designado.
O diretor reconheceu que os países têm “soberania” para adotar protocolos próprios e que a OMS não tem como obrigá-los a seguir suas recomendações. A França pediu nesta terça-feira uma “coordenação mais estreita” dos protocolos sanitários entre os países da União Europeia.
A operação de repatriação envolveu mais de 120 passageiros e tripulantes de cerca de 20 países. Entre os evacuados, três tiveram resultado positivo: uma francesa, um americano e um espanhol. O Hondius zarpou na noite de segunda-feira com tripulação reduzida rumo aos Países Baixos, sua base de operações.
Cepa Andes: a variante que se transmite entre humanos
O vírus identificado no Hondius é a cepa Andes, única variante do hantavírus com capacidade documentada de transmissão de pessoa para pessoa — o que explica a preocupação com passageiros já dispersos em diferentes países. Em geral, o hantavírus é contraído por contato com roedores infectados, via urina, fezes ou saliva.
A cautela da OMS quanto a novos casos tem raiz nos contágios identificados fora do navio: França, Holanda e Singapura investigaram suspeitos que jamais estiveram a bordo do Hondius, ampliando o raio de risco da crise.
A situação remonta ao início de maio. O Hondius ficou ancorado em Cabo Verde sem autorização para atracar — e a própria OMS já descartava alarmismo, mas admitia incerteza sobre como o vírus chegara a bordo.
Espanha no centro do debate político
O espanhol que cumpre quarentena em um hospital militar em Madri teve resultado positivo confirmado, com febre e sintomas respiratórios leves, mas está estável, segundo o Ministério da Saúde. Os demais 13 compatriotas apresentaram resultado negativo.
Pedro Sánchez comemorou o que chamou de “sucesso” da operação e defendeu a decisão de receber o navio em Tenerife. “O mundo não precisa de mais egoísmo, nem de mais medo; precisa de países solidários que queiram dar um passo à frente”, afirmou.
A chegada do Hondius ao arquipélago não foi isenta de tensão. O governo regional das Ilhas Canárias havia recusado categoricamente a entrada do navio, colocando Sánchez em rota de colisão com o presidente regional Fernando Clavijo antes mesmo de a repatriação começar.
Sánchez também respondeu às críticas sobre por que Cabo Verde — onde o navio fez escala sem permissão para desembarcar — não seria a sede da operação. “A pergunta correta era: por que não vamos ajudar quem precisa se está em nossas mãos fazê-lo?”, questionou.
O Hondius iniciou sua viagem em 1º de abril em Ushuaia, na Argentina, e deve chegar aos Países Baixos no fim de semana. Tedros encerrou com um alerta que resume a dimensão do problema: “Os vírus não conhecem fronteiras.”
