O governo das Ilhas Canárias anunciou nesta quarta-feira (6) que não permitirá o atracamento do MV Hondius, navio de cruzeiro com surto de hantavírus a bordo.
A embarcação está ancorada em Cabo Verde, onde dois tripulantes doentes estão sendo evacuados. Cerca de 149 pessoas de 23 países permanecem a bordo sob medidas rigorosas de precaução.
A OMS registra oito casos — três confirmados e cinco suspeitos. Três passageiros morreram, dois com ligação confirmada ao vírus.
Embate entre governo regional e Madrid
Fernando Clavijo, líder do governo das Ilhas Canárias, foi categórico ao recusar o plano espanhol. “Não posso permitir a entrada [do navio]”, afirmou. “Esta decisão não se baseia em quaisquer critérios técnicos e também não nos foram dadas informações suficientes.”
Clavijo, que estava em Bruxelas na quarta-feira, pediu reunião urgente com o primeiro-ministro Pedro Sánchez em Madri. A operadora holandesa Oceanwide Expeditions havia informado que o plano “é seguir para as Ilhas Canárias, Gran Canaria ou Tenerife” — três dias de navegação a partir de Cabo Verde. O MV Hondius partiu da Argentina em 1º de abril.
Ainda nesta quarta-feira, a África do Sul confirmou que a cepa em circulação no MV Hondius é a variante andina — a única conhecida com histórico de transmissão entre humanos —, dado que pesa diretamente no debate sobre o destino do navio.
Mortes e rastreamento internacional
Entre os mortos estão um casal holandês e um cidadão alemão, falecido em 2 de maio. Apenas a morte da mulher holandesa foi confirmada como ligada ao hantavírus. Um britânico de 69 anos, evacuado para a África do Sul para tratamento, também teve o diagnóstico confirmado.
Na Suíça, um homem foi diagnosticado com o vírus após viajar no cruzeiro e está recebendo tratamento em Zurique. A OMS acompanha o rastreamento de contatos em escala internacional para conter qualquer propagação adicional da doença.
Na véspera, a OMS havia levantado a hipótese de transmissão entre passageiros em contato próximo a bordo — e as Ilhas Canárias já apareciam como o destino previsto para o navio, antes de o governo regional vetar a entrada. “Algumas pessoas no navio eram casais, compartilhavam cabines — é um contato bastante íntimo”, explicou a autoridade da OMS Maria Van Kerkhove. Dois dias antes, quando a OMS ainda classificava o risco do surto como baixo e o navio permanecia ancorado ao largo de Praia sem autorização para atracar, nada indicava que o impasse chegaria às portas das Ilhas Canárias.
Hantavírus no Brasil e no mundo
O hantavírus é transmitido principalmente pela inalação de partículas de fezes, urina ou saliva de roedores. Pode causar a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (HPS) — com mortalidade de cerca de 38% quando há comprometimento respiratório — ou a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (HFRS), mais prevalente na Europa e na Ásia.
No Brasil, entre 1993 e 2024, foram confirmados 2.377 casos de hantavirose, com 937 mortes. O Ministério da Saúde aponta que 70% dos infectados estavam em zonas rurais. Não há tratamento específico: o manejo é de suporte, com oxigenoterapia, antivirais e, em casos graves, internação em UTI.
