O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou nesta terça-feira (12) ter cobrado de Donald Trump a entrega de criminosos brasileiros refugiados em Miami. O pedido foi feito durante encontro entre os dois líderes e confirmado em discurso no Palácio do Planalto.
A declaração ocorreu no lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, que prevê R$ 11 bilhões em investimentos para segurança pública.
Lula disse que condicionou a cooperação à disposição de Trump de “encarar com seriedade o crime organizado e o narcotráfico”. Para o petista, a parceria serviria para derrotar organizações criminosas dos dois lados da fronteira — e não apenas responsabilizar o Brasil pela crise.
“Essas coisas é importante dizer porque senão eles passam a ideia de que a desgraça toda tá do lado de cá e que eles não têm nada a ver com isso”, afirmou o presidente.
O pedido de extradição integrou uma agenda bilateral mais ampla: na semana passada, na Casa Branca, Lula já havia proposto a Trump a criação de um grupo de trabalho internacional contra o narcotráfico — a cobrança por criminosos brasileiros em Miami fez parte da mesma pauta.
Lula sustentou ainda que os líderes do crime não estão nas favelas, mas infiltrados em bairros de alto padrão, no empresariado, no judiciário, no Congresso e no futebol. Sem citar nomes no discurso, o presidente tem mencionado em declarações recentes o empresário Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, que vive em Miami e é considerado foragido pela Justiça brasileira. Seu nome aparece em fases da Operação Carbono Oculto, que investiga a presença do PCC no mercado de combustíveis.
O pedido se insere num debate mais amplo em Washington: congressistas democratas enviaram carta ao secretário Marco Rubio pedindo cautela antes de classificar o PCC como organização terrorista, alertando que a medida poderia prejudicar exatamente o tipo de cooperação bilateral que Lula agora reivindica.
O contexto diplomático, porém, é delicado. Em abril, o governo americano expulsou de Miami o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho — episódio que gerou retaliação do Itamaraty e escancarou a fragilidade da cooperação policial entre os dois países, mesmo antes do pedido formal de extradição.
No mesmo discurso, Lula sinalizou que o governo precisará negociar “muito” com o Poder Judiciário para evitar que criminosos presos pelas polícias civil e militar estaduais sejam soltos dias depois da detenção.
O presidente confirmou ainda a criação de um Ministério da Segurança Pública — mas a medida depende da aprovação da PEC da Segurança Pública pelo Senado. Aprovada pela Câmara em março, a proposta aguarda despacho do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para começar a tramitar na Casa.
A PEC enfrenta resistência de parlamentares e governadores da oposição, que temem ampliação excessiva do papel da União na segurança dos estados. O texto prevê maior integração entre os entes federativos e a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp).
