O Banco Mundial alertou nesta terça-feira (28) que os preços da energia devem subir 24% em 2026, atingindo o nível mais alto em quatro anos como consequência direta da guerra no Oriente Médio — o maior choque de oferta de petróleo já registrado na história.
A projeção parte do cenário em que os impactos mais graves do conflito se encerram em maio. Caso as hostilidades se intensifiquem e as interrupções no fornecimento durem mais do que o esperado, os preços podem subir ainda mais.
No quadro geral, o banco projeta alta de 16% nos preços das commodities, impulsionada pela energia, pelos fertilizantes e por recordes em vários metais importantes.
O relatório Perspectivas dos Mercados de Commodities do Banco Mundial detalha que o Estreito de Ormuz — por onde passava cerca de 35% do comércio global de petróleo bruto transportado por via marítima antes do conflito — permanece em grande parte fechado, cortando o fornecimento de energia, fertilizantes e outras commodities aos compradores globais.
Em meados de abril, o petróleo Brent já acumulava alta superior a 50% em relação ao início do ano. A projeção central do banco é que o barril atinja média de US$ 86 em 2026, ante US$ 69 estimados para 2025. No pior cenário — com novos danos a instalações críticas de petróleo e gás —, o Brent pode chegar a US$ 115 por barril. Os contratos futuros para junho já eram negociados em torno de US$ 109 na terça-feira, após o maior fechamento desde 7 de abril.
O banco estima que o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde passa mais de 20% de todo o comércio global de petróleo, deve retornar gradualmente a níveis pré-guerra somente até outubro. Os riscos, segundo o relatório, estão “notavelmente inclinados” para preços mais altos.
O alerta caminha na mesma direção do que o FMI havia projetado em abril: o conflito no Oriente Médio derrubou 13% do fluxo diário global de petróleo e deve empurrar dezenas de bilhões de dólares em novos pedidos de socorro financeiro ao fundo, conforme análise publicada pelo Tropiquim.
Fertilizantes, alimentos e recessão nas economias em desenvolvimento
O choque de oferta extrapola o setor de energia. O Banco Mundial projeta que os preços dos fertilizantes subam 31% em 2026, com destaque para a ureia — o fertilizante nitrogenado sólido mais utilizado no mundo —, cujo preço deve disparar 60%. Por ser produzida a partir da conversão do gás natural em amônia e dióxido de carbono, a ureia está diretamente exposta ao choque energético.
O Programa Mundial de Alimentos estima que mais 45 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar aguda neste ano caso a guerra se prolongue, corroendo a renda de agricultores e comprometendo safras em economias vulneráveis.
No campo macroeconômico, o banco projeta inflação média de 5,1% nas economias em desenvolvimento em 2026 no cenário-base — acima dos 4,7% de 2025 e um ponto percentual além das projeções anteriores ao conflito. Se o conflito durar mais, a inflação pode alcançar 5,8%. O crescimento dessas economias foi revisado para baixo, de 4% para 3,6%.
No Brasil, o impacto já chegou ao mercado financeiro: com o petróleo operando acima de US$ 100, a projeção do IPCA para 2026 foi elevada a 4,80% — reflexo direto do choque de oferta que o Banco Mundial agora quantifica em escala global, como mostrou o Tropiquim.
