O Banco Central informou nesta quinta-feira (30) que as contas do setor público consolidado fecharam março com déficit primário de R$ 80,7 bilhões — uma virada abrupta em relação ao superávit de R$ 3,6 bilhões registrado no mesmo mês de 2025.
O resultado empurrou a dívida bruta do setor público a 80,1% do PIB, o equivalente a R$ 10,35 trilhões: o maior patamar desde julho de 2021, há quase cinco anos.
Precatórios antecipados explicam a piora
A principal causa do rombo de março é a antecipação no pagamento de precatórios — sentenças judiciais que o governo liquida à vista. Na véspera, o Tesouro Nacional havia revelado que o déficit do governo federal em março foi o pior para o mês desde 1997 — puxado pela antecipação no pagamento de precatórios, que também explica a piora no dado consolidado do Banco Central.
No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o setor público registrou superávit de apenas R$ 6,62 bilhões (0,21% do PIB), ante R$ 88,7 bilhões (2,93% do PIB) no mesmo período de 2025. O governo federal saiu de um superávit de R$ 52,32 bilhões para um déficit de R$ 17,04 bilhões na parcial do ano.
Dívida em trajetória histórica de alta
A dívida do setor público avançou 0,9 ponto percentual em março. Pelo critério do FMI — que incorpora os títulos públicos em carteira do Banco Central —, o endividamento brasileiro alcançava 92% do PIB, bem acima da média de países emergentes e da própria Zona do Euro.
Desde o início do governo Lula, em janeiro de 2023, a dívida acumula expansão de 8,4 pontos percentuais. O crescimento é puxado principalmente pelo aumento dos gastos públicos e pelas despesas com juros nominais, que somaram R$ 1,08 trilhão (8,35% do PIB) nos doze meses até março. A taxa Selic de 14,5% ao ano amplifica esse custo de forma direta.
Arcabouço fiscal sob pressão crescente
A meta para 2026 admite um déficit máximo de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões. No entanto, o resultado nominal do setor público acumulou déficit de R$ 1,21 trilhão nos doze meses até março — 9,4% do PIB. Economistas alertam que o arcabouço fiscal, aprovado em 2023 em substituição ao teto de gastos, não resistirá sem cortes robustos de despesas.
Sem esse ajuste, a tendência apontada por especialistas é o abandono das regras nos próximos anos, seguido de nova expansão acelerada do endividamento. Analistas do mercado financeiro projetam que a dívida pública chegue a 98,9% do PIB em 2035 pelo conceito brasileiro — e ultrapassaria 100% do PIB pelo critério do FMI, patamar típico de economias avançadas com histórico fiscal consolidado, não de países emergentes.
O resultado contrasta com a proposta enviada ao Congresso semanas atrás, quando o governo dobrou a ambição fiscal para 2027 — projetando um superávit de R$ 73,2 bilhões num cenário de dívida em rota ascendente. O patamar da dívida é monitorado de perto por agências de classificação de risco, e sua deterioração pode encarecer o crédito para empresas e famílias em toda a economia.
