A Polícia Federal devolveu na segunda-feira (27) as credenciais de trabalho do agente americano que atuava em sua sede em Brasília. O anúncio foi feito nesta terça-feira (28).
O acesso ao prédio e às bases de dados compartilhadas entre as polícias dos dois países havia sido suspenso na semana anterior como resposta à expulsão de um delegado brasileiro dos Estados Unidos.
A devolução representa o primeiro movimento de distensão após uma semana de escalada diplomática entre os dois países.
Dupla represália brasileira ao governo Trump
O princípio da reciprocidade estabelece que um Estado tende a tratar o outro da mesma forma como é tratado nas relações internacionais. Foi com base nesse fundamento que a PF e o Itamaraty agiram contra dois funcionários americanos que atuavam no Brasil.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou à GloboNews que os dois foram alvo de medidas distintas. “Um teve temporariamente o acesso cortado à PF por mim. Outro teve o visto cancelado e determinado seu retorno aos Estados Unidos pelo MRE”, declarou.
Sem as credenciais, o agente americano perdeu acesso à unidade da PF em Brasília e às bases de dados utilizadas nas cooperações policiais — estrutura que sustenta o intercâmbio de informações no combate a foragidos e crimes transnacionais.
Na semana anterior, o Itamaraty havia formalizado a resposta ao governo Trump com a retirada das credenciais do agente americano — medida que, menos de uma semana depois, foi revertida pela PF.
A crise teve origem quando Washington pediu, em 20 de abril, que um delegado brasileiro deixasse o território americano. Rodrigues afirmou ter sido ele próprio a ordenar o retorno do delegado Marcelo Ivo de Carvalho ao Brasil, contrariando a narrativa americana de expulsão.
Raízes do impasse: Ramagem e o delegado em Miami
O estopim da crise foi a prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) nos Estados Unidos. O governo americano afirmou, sem citar nomes, que uma autoridade brasileira tentou “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” — referência confirmada pela TV Globo como sendo o delegado Marcelo Ivo de Carvalho.
Carvalho atuava junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE) em Miami desde março de 2023, com a missão de identificar e prender foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos. Em março de 2025, o governo prorrogou sua permanência até agosto deste ano — mas ele já retornou ao Brasil.
O segundo americano afetado foi Michael Myers, que trabalhava com a PF na troca de informações desde 2024 como parte de um acordo de cooperação bilateral. A saída de Myers na semana passada e a devolução das credenciais ao colega nesta segunda-feira constituem os dois primeiros sinais concretos de acomodação após a escalada diplomática.
O Ministério de Relações Exteriores havia publicado nota criticando o governo Trump por não ter seguido a “boa prática diplomática” ao comunicar a expulsão do delegado sem recorrer aos canais adequados.