O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta segunda-feira (22) que foi ele quem ordenou o retorno do delegado Marcelo Ivo de Carvalho ao Brasil — contrariando diretamente a versão americana, que havia anunciado a expulsão do agente.
“Não há nenhuma expulsão de funcionário brasileiro. Ele voltou por determinação minha”, declarou Andrei em entrevista à GloboNews. Segundo ele, o objetivo é apurar se existe um processo formal no Departamento de Estado ou no ICE contra o delegado.
Marcelo Ivo de Carvalho atuava em Miami desde março de 2023, em missão junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE), com a função de identificar e prender foragidos da Justiça brasileira no país. Sua permanência havia sido prorrogada até agosto de 2026 por portaria federal.
O estopim da crise foi a prisão de Alexandre Ramagem em Orlando, na Flórida, em 13 de abril. Deputado federal pelo PL-RJ, Ramagem havia fugido clandestinamente do Brasil em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana, enquanto era julgado pelo STF por participação na trama golpista. Dois dias após ser preso, ele foi liberado — e a Polícia Federal sequer foi notificada da soltura, episódio que levou o delegado a agir diretamente junto ao ICE, fora dos canais formais. O ICE informou à PF que Ramagem poderá aguardar em liberdade nos EUA a conclusão do processo de pedido de asilo.
Na segunda-feira (20), o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano divulgou que havia determinado a saída do delegado. O governo Trump anunciou a saída imediata do agente, acusando-o de tentar contornar os canais formais de extradição para promover perseguições políticas — versão que Andrei Rodrigues contradiz ao assumir publicamente a ordem de retorno.
Na véspera da declaração de Andrei, o Itamaraty convocou a encarregada de negócios dos EUA para pedir esclarecimentos, enquanto o presidente Lula sinalizava o uso do princípio da reciprocidade como possível resposta diplomática.
Em entrevista durante sua viagem pela Europa nesta terça-feira (21), Lula disse que ainda não sabia exatamente o que havia ocorrido, mas admitiu que o Brasil pode aplicar o princípio da reciprocidade contra um americano no país. O princípio, consagrado no direito internacional, prevê que um Estado pode adotar medida equivalente em relação a outro.
O governo americano não chegou a citar o nome do delegado em seu comunicado inicial. Foi a TV Globo que confirmou com a Embaixada dos EUA no Brasil tratar-se de Marcelo Ivo de Carvalho — o mesmo agente que integrava há dois anos a missão junto ao ICE em Miami.
