Um sindicato de bancos formado por Citibank, BTG Pactual e Banco ABC do Brasil bloqueou o faturamento dos Correios durante o segundo trimestre de 2025 após a estatal registrar aumento nas despesas com precatórios — ordens judiciais de pagamento de dívidas com pessoas e empresas.
O bloqueio foi possível porque o contrato de empréstimo de R$ 1,8 bilhão, firmado em junho de 2024, previa estabilidade no estoque de precatórios da empresa. Com o reconhecimento de novas perdas judiciais ao longo do ano, a cláusula foi acionada.
A informação consta em documento interno da Diretoria Econômico-Financeira dos Correios, obtido pelo g1 com exclusividade, que classifica a situação como de ‘alta criticidade’.
Crise de caixa e renegociação com os credores
O bloqueio do faturamento gerou um severo aperto de caixa na estatal no segundo semestre de 2025. Fornecedores deixaram de ser pagos, a prestação de serviços foi comprometida e a empresa ficou exposta ao descumprimento de obrigações trabalhistas e tributárias, segundo o documento interno.
Para retomar o acesso às próprias receitas, os Correios tiveram de renegociar o contrato com os bancos credores. O acordo fixou um teto de R$ 2,5 bilhões para o estoque de precatórios reconhecidos e suspendeu a apuração de novos casos entre setembro e dezembro de 2025.
Custo financeiro da renegociação
A reabertura do faturamento teve preço. A estatal pagou R$ 44,8 milhões em duas parcelas — novembro e dezembro de 2025 — a título de ‘dispensa de obrigação contratual’, uma taxa cobrada pelos credores para liberar a mudança das condições.
Além disso, os juros do empréstimo subiram progressivamente: de 3% ao ano mais a taxa DI, passaram para 4% + DI entre 28 de setembro e 28 de novembro, e depois para 5% + DI a partir de 28 de novembro. A taxa efetiva total saltou de 21,99% para 25,67% ao ano.
O novo contrato prevê retorno à taxa original de 3% + DI apenas se os Correios receberem um aporte de capital superior a R$ 5 bilhões.
Os precatórios que acionaram a cláusula de bloqueio foram também os principais responsáveis pelo rombo de R$ 8,5 bilhões registrado pela estatal em 2025 — dos quais R$ 6,4 bilhões vieram justamente dessas despesas judiciais obrigatórias.
Pagamentos antecipados e corrida pelo empréstimo bilionário
Outra mudança imposta pela renegociação foi o calendário de pagamentos do empréstimo de R$ 1,8 bilhão. As parcelas, que seriam semestrais a partir de maio de 2026, passaram a ser mensais e começaram já em janeiro deste ano.
Com isso, a tomada de um novo empréstimo de R$ 12 bilhões tornou-se prioridade máxima para a gestão atual dos Correios: o recurso seria necessário tanto para recompor a liquidez quanto para quitar o contrato original antes que novos bloqueios ocorressem.
Ao final de 2025, a estatal acumulava cerca de R$ 5 bilhões em compromissos não pagos, segundo declaração de um dos dirigentes da empresa citada no documento.
A escalada de custos descrita no documento interno dos Correios já havia acendido o alerta no TCU, que classificou a situação da estatal como ‘alarmante’ e levou o caso ao Congresso Nacional. O empréstimo de R$ 1,8 bilhão havia sido contratado pelo então presidente da estatal, Fabiano Silva dos Santos.
