O Instituto Tecnológico de Mauá começa em maio os primeiros testes para verificar se o Brasil está pronto para elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 15% para 20%.
A iniciativa responde à crise energética provocada pela guerra no Irã e faz parte do esforço nacional para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
A informação foi confirmada por Renato Romio, gerente da divisão de veículos do instituto, durante evento da Abiove e do IBP realizado em São Paulo nesta quinta-feira (23).
Testes em duas fases e 300 horas de avaliação
Na primeira fase, o Instituto Tecnológico de Mauá testará motores com as misturas B15 e B20 — 15% e 20% de biodiesel no diesel, respectivamente. A instalação do primeiro motor está prevista para maio, e os combustíveis a serem testados devem chegar na última semana do mês.
Cada motor será submetido a 300 horas de operação, com avaliação de três pontos críticos: entupimento de filtros, comportamento do sistema de injeção e condição dos bicos injetores.
A segunda fase amplia o escopo e incluirá análise das emissões de poluentes em misturas com 7% e 25% de biodiesel — cobrindo um espectro mais abrangente de blends e preparando o terreno para futuras decisões regulatórias.
Setor celebra abrangência dos testes
Para Daniel Amaral, diretor de economia e assuntos regulatórios da Abiove, os testes representam um avanço concreto para o setor. “É um conjunto de testes bastante amplo, bastante bem discutido entre todas as entidades relacionadas à produção e ao uso de biodiesel”, afirmou. “Certamente abrirá caminho para misturas acima de B15 e até B20, o que representa um cenário muito promissor.”
O evento foi organizado em conjunto pela Abiove e pelo Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), reunindo representantes dos principais elos da cadeia produtiva de biocombustíveis no país.
O Brasil ocupa posição de destaque na produção global de biocombustíveis, utilizando soja e cana-de-açúcar como principais matérias-primas. As misturas obrigatórias em vigor — 15% de biodiesel no diesel e 30% de etanol anidro na gasolina — já colocam o país décadas à frente de outras grandes economias em termos de transição energética.
A pressão para ampliar esses índices ganhou urgência com a crise desencadeada pela guerra no Irã, que expôs a vulnerabilidade de países dependentes de importações de petróleo e acelerou o debate sobre segurança energética no Brasil.
A estrutura de misturas obrigatórias foi apontada pela The Economist como o principal fator que amorteceu o choque da guerra nos preços dos combustíveis brasileiros — foi a lógica que manteve o país com uma matriz energética décadas à frente do resto do mundo. Leia a análise completa sobre os biocombustíveis como escudo brasileiro.
O avanço para o B20 segue a mesma estratégia que já rendeu frutos no etanol: enquanto americanos pagaram 30% a mais na gasolina por causa da guerra no Irã, o Brasil segurou a alta graças à matriz de biocombustíveis construída ao longo de cinco décadas — e os novos testes podem ampliar ainda mais essa vantagem competitiva. Veja como o etanol protegeu a renda dos brasileiros durante a crise do petróleo.
