Em março, enquanto americanos pagaram 30% a mais na gasolina por causa da guerra no Irã, o Brasil registrou alta de apenas 5% nas bombas. O amortecedor é o etanol de cana-de-açúcar — e uma política energética que completa 51 anos.
Lançado em 1975 durante a ditadura militar, o Proálcool transformou o Brasil no único país com dezenas de milhões de veículos bicombustíveis em escala nacional. Cada motorista pode optar por etanol 100% ou gasolina com 30% de biocombustível.
O momento é estratégico: a safra de cana que começa em abril deve produzir um recorde de 30 bilhões de litros de etanol — 4 bilhões a mais que no ano passado.
Décadas de investimento, resultado nas bombas
Os números traduzem o diferencial. A gasolina refinada pela Petrobras — já com a mistura de biocombustíveis incorporada — está 46% mais barata que o combustível importado, o equivalente a R$ 1,16 menos por litro. Para o diesel, a vantagem chega a 63%.
Em 2025, o etanol movimentou 37,1 bilhões de litros em vendas no país, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Mesmo ficando atrás do diesel em volume total, sua presença em todos os postos cria uma rede de segurança econômica e psicológica para o consumidor — segundo analistas do setor.
A base produtiva está concentrada em São Paulo, onde coexistem megafazendas de alta tecnologia voltadas à exportação e pequenas operações familiares — como a fazenda Bom Retiro, fundada em 1958, que opera em 40 quilômetros quadrados e já se prepara para colher a nova safra.
A tecnologia é sustentada por pesquisa financiada pelo Estado. O Centro de Desenvolvimento Científico do Etanol, da Unicamp, em Campinas, é um dos polos de referência. Seu coordenador, Luis Cortez, afirma que o programa brasileiro possui vantagens únicas e incomparáveis às de outros países. A análise já havia sido antecipada pela imprensa internacional: semanas antes, a The Economist apontava o Brasil como o país mais bem posicionado para resistir ao choque energético graças à sua indústria de biocombustíveis — exatamente o que os dados de março confirmam.
O aumento previsto na safra de abril, por si só, equivale ao volume total de gasolina importada pelo Brasil durante todo o ano passado, segundo o presidente da UNICA, Gussi — reforçando a autonomia que o etanol confere ao país em momentos de instabilidade geopolítica.
O calcanhar de Aquiles: o diesel dos caminhões
Se o etanol blindou a gasolina, o diesel contou outra história em março. A vulnerabilidade no diesel ficou evidente: enquanto o etanol segurou a gasolina, o combustível dos caminhões acumulou alta de 24% e chegou a faltar em postos de várias regiões do país.
A exposição é estrutural. O biodiesel brasileiro, produzido majoritariamente a partir da soja, representa apenas 14% da mistura do diesel — muito abaixo dos 30% de biocombustível misturados à gasolina. Esse patamar só deve ser alcançado em 2030, se as pesquisas avançarem no ritmo esperado.
O país importa entre 20% e 30% do diesel que consome todo mês, com a maior parte vindo da Rússia. No ano passado, foram quase 17 bilhões de litros importados. Com o conflito no Irã, os preços subiram mais de 20% em março — e o fechamento do Estreito de Ormuz ameaça agravar o quadro.
Antes de propor subsídios à importação, o governo já havia tentado conter a alta com um pacote de isenções — mas os preços continuaram subindo, chegando ao diesel perto de R$ 7,30 o litro. Agora, Lula propõe subsídios à importação até maio. Para o presidente de 80 anos, que busca reeleição em outubro, diesel caro significa greve de caminhoneiros e inflação de alimentos — um risco político inaceitável.
O modelo brasileiro, apesar das brechas no diesel, já atrai olhares externos. Desde o início do conflito no Irã, o presidente da UNICA recebeu chefes de Estado interessados na expertise do país. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum declarou interesse na tecnologia da Petrobras para produzir etanol a partir do agave, planta popular em seu território — sinal de que o Brasil pode exportar não apenas combustível, mas o próprio modelo.
