Uma investigação da BBC cruzou dados de volume de negociações em mercados financeiros com as declarações mais relevantes de Donald Trump ao longo de seu segundo mandato — e identificou um padrão sistemático: apostas milionárias que antecipam anúncios presidenciais por minutos ou horas.
Os episódios envolvem contratos futuros de petróleo, fundos atrelados ao S&P 500 e plataformas de apostas online. Em todos eles, o volume de operações cresceu de forma atípica antes de qualquer publicação pública do presidente.
Especialistas apontam características de uso ilegal de informação privilegiada. A Casa Branca e a SEC não responderam aos pedidos de comentário da BBC.
Petróleo e a guerra com o Irã
Os maiores movimentos suspeitos ocorreram nos contratos futuros de petróleo, diretamente ligados ao conflito entre EUA, Israel e Irã. Em entrevista à CBS News, Trump afirmou que a guerra estava ‘praticamente concluída’. A informação chegou ao público às 19h16 (GMT), quando um jornalista publicou sobre o assunto no X.
Mas os dados mostram que operadores já apostavam na queda do petróleo às 18h29 — 47 minutos antes. O preço despencou cerca de 25%, gerando lucros de milhões de dólares para quem havia se posicionado antecipadamente.
Em 23 de março, Trump surpreendeu ao publicar no Truth Social que os EUA haviam mantido ‘CONVERSAS MUITO BOAS E PRODUTIVAS’ com o Irã. O anúncio derrubou o Brent de US$ 113 para US$ 100,71 em um único pregão — e apostas incomuns já tinham sido registradas 14 minutos antes da publicação. Apenas dois dias antes, o presidente havia ameaçado ‘aniquilar’ usinas de energia iranianas.
O padrão se inverteu quando Trump voltou a ameaçar o Irã. Em 1º de abril, o Brent disparou para US$ 105 após novas promessas de ataques — mais um episódio em que movimentos bilionários precederam qualquer reação pública dos mercados.
Tarifas e o S&P 500
No chamado ‘Dia da Libertação’, em 2 de abril de 2025, Trump anunciou tarifas amplas sobre praticamente todos os países. As bolsas globais despencaram. Uma semana depois, ao anunciar uma pausa de 90 dias nas tarifas — exceto para a China —, o S&P 500 subiu 9,5%, um dos maiores ganhos diários desde a Segunda Guerra Mundial.
Naquele dia, o volume de contratos do fundo atrelado ao S&P 500 saltou de centenas para mais de 10 mil por minuto logo após as 17h. Apostas superiores a US$ 2 milhões foram feitas na alta do mercado após sete dias consecutivos de queda — com lucro potencial estimado em quase US$ 20 milhões.
Senadores democratas enviaram carta à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) pedindo investigação sobre se os anúncios beneficiaram pessoas próximas à administração Trump ‘às custas do público americano’. A SEC se recusou a comentar.
Mercados de previsão e a família Trump
O mesmo padrão aparece em plataformas de apostas baseadas em blockchain. Donald Trump Jr., filho do presidente, é investidor e integra o conselho consultivo da Polymarket — e também atua como conselheiro estratégico da Kalshi, plataforma concorrente.
Em dezembro de 2025, uma conta chamada Burdensome-Mix apostou US$ 32,5 mil na saída de Nicolás Maduro do poder até o fim de janeiro de 2026. Quando forças especiais dos EUA capturaram Maduro, a conta lucrou US$ 436 mil — logo depois, mudou de nome de usuário e parou de apostar.
Em fevereiro, seis contas na Polymarket apostaram na confirmação de ataques dos EUA ao Irã até o dia 28. Lucraram juntas US$ 1,2 milhão quando Trump confirmou as operações. Cinco delas não fizeram mais apostas desde então. Uma, porém, voltou a acertar: ganhou US$ 163 mil ao apostar corretamente em um cessar-fogo entre EUA e Irã até 7 de abril de 2026, anunciado exatamente naquele dia.
Em março deste ano, Polymarket e Kalshi anunciaram novas regras contra o uso de informação privilegiada. A Casa Branca enviou e-mail interno alertando funcionários, mas o porta-voz Davis Ingle classificou como ‘infundada e irresponsável’ qualquer insinuação sem evidências de envolvimento governamental.
Para o professor Paul Oudin, da ESSEC Business School, as regras são difíceis de aplicar: ‘É possível haver grandes operações que indicam claramente que alguém tinha acesso prévio ao que Trump estava prestes a anunciar’, diz ele. ‘No entanto, há grande probabilidade de que ninguém seja processado.’ O uso de informação privilegiada é ilegal nos EUA desde 1933 — e desde 2012 a lei inclui autoridades do governo, mas nenhuma foi processada com base nessa norma até hoje.
