Um dos quimioterápicos mais usados na oncologia e na reumatologia brasileira sumiu dos estoques hospitalares. A ciclofosfamida endovenosa está em desabastecimento no país, obrigando médicos a reescrever protocolos de tratamento em tempo real — nem sempre com substitutos à altura.
O Ministério da Saúde realizou compra emergencial de 80 mil frascos-ampola e 140 mil comprimidos do medicamento. A normalização do abastecimento está prevista para junho de 2026, após retomada gradual da produção pela farmacêutica Baxter, que atribui a crise a uma interrupção técnica em fábrica parceira.
Por que a ciclofosfamida é difícil de substituir
Desenvolvida há décadas, a ciclofosfamida age danificando o DNA de células que se multiplicam rapidamente — como as tumorais ou as do sistema imune em doenças autoimunes. Mesmo antiga, permanece em protocolos considerados padrão-ouro: integra esquemas clássicos para câncer de mama, tumores pediátricos e doenças hematológicas, além de ser considerada fundamental em casos graves de lúpus com comprometimento renal ou neurológico e em vasculites sistêmicas.
Com a formulação intravenosa em falta, sociedades médicas passaram a emitir orientações emergenciais. No câncer de mama, uma das estratégias é inverter a ordem dos tratamentos: iniciar pela etapa que não depende da droga e adiar seu uso até o estoque normalizar. Outra saída é migrar para a versão oral, ainda disponível no país, em protocolos como o CMF e o CAF, que têm respaldo em estudos clínicos. Em casos de câncer de mama triplo-negativo, a carboplatina pode entrar como alternativa.
Ainda assim, as orientações são categóricas: para tumores pediátricos, transplantes de medula óssea e certas doenças hematológicas, não há substitutos plenamente equivalentes — e os estoques disponíveis devem ser priorizados para esses pacientes.
Reumatologia: substituições com maior grau de incerteza
Na reumatologia, o cenário exige ainda mais cautela. Para lúpus com comprometimento renal, o micofenolato mofetil pode ser uma opção com eficácia semelhante em alguns contextos. Nas vasculites, o rituximabe entra como alternativa. Outros imunossupressores — azatioprina, tacrolimo e ciclosporina — também podem ser considerados, conforme o tipo e a gravidade do quadro.
A Sociedade Brasileira de Reumatologia alerta que essas substituições não são universalmente equivalentes e precisam ser avaliadas caso a caso, com risco real de piora clínica se mal indicadas.
A causa imediata do desabastecimento é uma interrupção técnica em fábrica parceira da Baxter. A produção foi retomada, mas ainda opera com capacidade reduzida — insuficiente para atender à demanda global, segundo a própria empresa, que afirma trabalhar com o Ministério da Saúde e a Anvisa para normalizar o fornecimento.
Para a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o problema não é novo nem isolado. Medicamentos antigos, baratos e fora de patente tendem a ter poucos fabricantes no mundo, tornando a cadeia vulnerável a qualquer interrupção na produção ou na obtenção de matéria-prima.
O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, aponta uma vulnerabilidade estrutural mais profunda: quando um fármaco clássico sai do sistema, as alternativas disponíveis costumam ser mais caras e menos estudadas naquele contexto específico. Isso pode ampliar desigualdades de acesso, especialmente no sistema público.
A escassez de ciclofosfamida tende a aprofundar uma desigualdade já mapeada no SUS: segundo estudo publicado em 2026, pacientes do Norte do país percorrem até seis vezes mais do que os do Sul para acessar tratamento oncológico — e a falta de quimioterápicos essenciais pode ampliar ainda mais esse fosso. Diante do cenário, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa a priorização de importação excepcional e a liberação mais rápida de lotes até a normalização prevista.
