Uma holding secreta vinculada às Forças Armadas de Cuba acumula pelo menos US$ 17,9 bilhões em ativos — mais que as reservas internacionais do Equador ou do Paraguai — enquanto nove em cada dez cubanos vivem em extrema pobreza.
A GAESA (Grupo de Administración Empresarial S.A.) controla os setores mais lucrativos da ilha: turismo, remessas, comércio exterior e missões médicas. Não tem website, não publica balanços e não pode ser auditada pelo Parlamento cubano.
Documentos vazados ao Miami Herald em 2024 revelaram pela primeira vez a dimensão desse império econômico paralelo ao Estado.
Um império construído nas sombras
Criada nos anos 1990 para gerir empresas militares durante o colapso pós-União Soviética, a GAESA cresceu silenciosamente até monopolizar praticamente tudo que gera dólares em Cuba.
Sob o comando do general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja — ex-genro de Raúl Castro, morto em 2022 —, a holding absorveu gigantes estatais como a Cimex, as redes turísticas Gaviota e Habaguanex, parte da operadora de internet Etecsa, o porto de Mariel e o Banco Financeiro Internacional (BFI), responsável pelas transações externas do país.
Hoje, segundo economistas, suas transações podem representar 40% do PIB cubano. A holding é presidida formalmente pela generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres, mas analistas estimam que o poder real está concentrado em não mais de 15 pessoas — o círculo familiar e de confiança de Raúl Castro, hoje com 94 anos e ainda considerado o homem mais poderoso de Cuba.
Lucros extraordinários em país falido
Os documentos revelados pelo Miami Herald mostram que, em agosto de 2024, a GAESA registrou mais de US$ 2,1 bilhões de lucro sobre receita de US$ 5,5 bilhões — margem de 38%, muito acima dos 5% a 15% típicos de grandes corporações internacionais.
A equação é difícil de bater: monopólio nos setores rentáveis, ausência de concorrência, receita em dólares e salários pagos em pesos cubanos. Seis anos atrás, o câmbio era de 24 pesos por dólar; hoje, no mercado informal, já supera 500 pesos — vantagem brutal para quem fatura em divisas.
A estrutura societária da GAESA é propositalmente obscura, com redes de filiais que dificultam rastrear os verdadeiros donos e proprietários. Especialistas estimam que parte das reservas esteja em bancos russos, chineses e possivelmente em paraísos fiscais, estruturadas para escapar de sanções internacionais.
Bilhões investidos no lugar errado
Enquanto a GAESA acumula, Cuba enfrenta queda acumulada de 15% no PIB nos últimos cinco anos, apagões de horas por dia e escassez crescente de alimentos, combustíveis e medicamentos. O bloqueio de facto no fornecimento de petróleo imposto pelo governo Trump agravou ainda mais a crise energética da ilha.
Críticos apontam que a estratégia de investimentos da holding é estruturalmente responsável por parte do colapso. Nos últimos anos, a GAESA apostou em novos hotéis em Havana enquanto o turismo despencava: de 4,7 milhões de visitantes em 2018 para 1,8 milhão no ano passado. Setores vitais como agricultura — que hoje produz apenas 20% do consumo nacional de alimentos — e geração de energia ficaram sem investimento adequado.
“O investimento no turismo foi fortemente desproporcional e se descuidou dos investimentos na agricultura, na rede elétrica e na manutenção das instalações geradoras”, afirma o economista Pavel Vidal. A GAESA detinha, em 2024, ativos suficientes para modernizar tanto o setor agropecuário quanto a geração de eletricidade da ilha — e não o fez.
Se o regime cubano, no poder desde 1959, ruir sob as pressões do bloqueio americano e da crise interna, o futuro desse vasto patrimônio militar bilionário permanece a maior incógnita de um país à beira do colapso.
