O governo federal arrecadou R$ 1,28 bilhão com a “taxa das blusinhas” no primeiro trimestre de 2026 — crescimento de 21,8% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar do resultado expressivo nas contas públicas, a ala política da gestão Lula passou a defender a revogação do imposto a menos de seis meses das eleições.
O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT), afirmou nesta quinta-feira (16) que achava “uma boa” revogar a medida. A posição diverge dos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, ambos contrários ao fim da cobrança.
De isenção total à aprovação no Congresso
Antes de junho de 2024, compras internacionais de até US$ 50 eram completamente isentas de impostos no Brasil. A mudança veio após pressão da indústria nacional, que apontava desequilíbrio competitivo frente a produtos de plataformas estrangeiras — sobretudo as asiáticas.
O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a classificar a taxação como “irracional”, mas assinou a lei após aprovação pelo Congresso Nacional. O então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sustentou publicamente que o imposto não traria impactos negativos ao consumidor.
Segundo a Receita Federal, a arrecadação saltou de R$ 1,05 bilhão no primeiro trimestre de 2025 para R$ 1,28 bilhão nos três primeiros meses deste ano. O avanço, porém, não impediu que os Correios registrassem prejuízos com a medida — um dos efeitos colaterais apontados no debate interno.
Geraldo Alckmin, que esteve à frente do Mdic até o mês passado, defendeu a manutenção do imposto e afirmou não haver decisão do governo pela revogação. Alckmin argumentou que, somando a taxa e o ICMS, a carga sobre os importados ainda ficaria abaixo dos quase 50% pagos pelo produtor nacional — reforçando o argumento de isonomia competitiva com a indústria local.
Pressão do setor produtivo e cálculo eleitoral
A resistência à revogação não vem apenas da ala econômica do governo. Empresários e trabalhadores de 67 associações enviaram um ofício diretamente ao presidente Lula protestando contra o possível fim da taxa. A mobilização cresceu ao longo das semanas: 53 entidades — entre elas CNI e CNC — já haviam publicado manifesto público contra a revogação, número que chegou a 67 signatários com o envio do ofício ao Planalto.
O debate ganha contornos eleitorais às vésperas de outubro de 2026. A pressão da ala política reflete a percepção de que o imposto, sentido diretamente no bolso de quem compra em plataformas internacionais, pode virar munição eleitoral para a oposição. O governo, no entanto, ainda não adotou posição oficial sobre o tema.
A divisão entre a equipe econômica — que defende a arrecadação e a isonomia com a indústria nacional — e o campo político do Planalto torna o desfecho incerto. O resultado robusto do primeiro trimestre pode, paradoxalmente, tanto reforçar o argumento pela manutenção quanto intensificar o questionamento sobre quem, de fato, arca com o custo da medida.
