A Europa pode ficar sem combustível de aviação em questão de semanas. O chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, alertou nesta quinta-feira (16/04) que os estoques europeus de querosene são suficientes para “talvez mais seis semanas”.
A causa é o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, mantido há mais de seis semanas em represália a ataques dos EUA e de Israel — rota responsável por cerca de 75% das importações europeias de combustível de aviação.
Nesta sexta-feira (17/04), Lufthansa e KLM já anunciaram cancelamentos de voos, e o setor teme que o pior ainda esteja por vir.
Lufthansa paralisa frota regional; KLM corta 160 voos
A alemã Lufthansa anunciou que sua subsidiária regional Lufthansa CityLine suspenderá as operações de todas as 27 aeronaves a partir de sábado (18/04). A empresa atribuiu a decisão à alta do querosene — cujo preço mais que dobrou desde o início do conflito com o Irã — somada a greves recorrentes de pilotos e tripulantes de cabine que paralisaram a companhia por cinco dias consecutivos nesta semana.
A holandesa KLM cancelou 160 voos para o próximo mês. A companhia nega escassez de combustível e insiste que os cortes decorrem exclusivamente do aumento de custos. Os passageiros afetados serão realocados para outros voos disponíveis.
Em março, a Scandinavian Airlines (SAS) já havia cancelado ao menos mil voos em abril por razões semelhantes. A EasyJet, companhia britânica de baixo custo, registrou custo adicional de £ 25 milhões (cerca de R$ 168 milhões) só em março — mesmo tendo garantido três quartos do combustível com preço fixo antecipadamente via hedge.
Preços em recorde histórico e risco de colapso em junho
O preço de referência do querosene de aviação na Europa atingiu US$ 1.838 por tonelada no início de abril, ante US$ 831 registrados antes do conflito — alta de 121%. O impacto é direto: o combustível representa entre 20% e 40% dos custos operacionais das companhias aéreas.
A AIE projeta que, se a Europa não conseguir substituir mais de 50% das importações perdidas do Oriente Médio, escassez física pode surgir em aeroportos selecionados ainda em junho. Se três quartos forem repostos, o problema se posterga para agosto — mas não desaparece. O mesmo Fatih Birol que agora alerta para cancelamentos de voos já havia classificado o momento como a maior crise energética da história, superando os choques de 1973, 1979 e 2022 somados.
A Europa busca substituir o fornecimento do Golfo com carregamentos dos EUA e da Nigéria, mas analistas alertam que mesmo que toda essa carga fosse destinada ao continente, cobriria pouco mais da metade do volume perdido do Oriente Médio.
A Comissão Europeia admitiu que problemas de abastecimento podem ocorrer “em um futuro próximo”, embora afirme não haver evidências de escassez no momento. Medidas energéticas devem ser anunciadas pela presidente da Comissão na próxima semana. A própria Comissão já havia revelado que 40% do querosene consumido na Europa passa pelo Estreito de Ormuz — e avisado que a crise não teria vida curta.
Há duas semanas, a AIE já recomendava a redução de voos como medida de contenção, algo que os europeus resistiam a adotar. Agora as companhias fazem isso compulsoriamente, pressionadas pela escassez e pela disparada nos preços.
Para Amaar Khan, especialista em preços de combustível da Argus Media, mesmo que o fornecimento do Golfo seja retomado em breve, ainda haverá escassez durante o pico de viagens do verão europeu — entre junho e agosto. “Parece cada vez mais provável que haja alguma escassez em algumas áreas da Europa”, avalia. Grandes hubs como Heathrow teriam prioridade sobre aeroportos menores, mas o impacto seria generalizado.
O setor aéreo europeu já pediu à UE que classifique a escassez de combustível como “circunstância extraordinária”, o que eximiria as companhias de pagar indenizações nos cancelamentos decorrentes da crise.
