O governo da China protestou nesta terça-feira (7) contra a inclusão da montadora BYD no Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à escravidão — a chamada “lista suja” do trabalho no Brasil.
O Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que “sempre exigiu” que suas empresas operem dentro das leis e regulamentos dos países onde atuam.
A BYD foi inserida no cadastro após o resgate de 220 trabalhadores chineses em dezembro de 2024, durante a construção de sua fábrica em Camaçari (BA).
A atualização do cadastro, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, inseriu 169 novos empregadores — alta de 6,28% em relação ao levantamento anterior. O total passou a cerca de 613 nomes, entre 102 pessoas físicas e 67 empresas. Os novos casos resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores em situação de exploração entre 2020 e 2025, em 22 estados brasileiros.
A BYD entrou no rol após fiscalização que flagrou trabalhadores chineses amontoados em alojamentos sem condições adequadas de higiene e conforto, vigiados por seguranças armados que impediam a saída. Passaportes estavam retidos e os contratos previam jornadas exaustivas sem descanso semanal — cláusulas vedadas pela legislação brasileira. O Ministério Público do Trabalho da Bahia (MPT-BA) apontou ainda que todos os trabalhadores entraram no país com vistos para serviços especializados incompatíveis com as funções exercidas na obra.
Acordo de R$ 40 milhões
À época dos resgates, a BYD atribuiu as irregularidades à construtora terceirizada Jinjiang Construction Brazil Ltda e encerrou o contrato com a empresa. No fim de 2025, o MPT-BA firmou um acordo de R$ 40 milhões com a montadora e duas empreiteiras, após ação civil pública por trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas.
A BYD, que já liderava o mercado de carros elétricos no Brasil à frente de rivais como a GAC — que também anunciou fábrica no país —, vê agora seu projeto industrial em Camaçari atingido por uma das sanções trabalhistas mais graves do governo federal.
Amado Batista também na lista
Outra inclusão de destaque na atualização é a do cantor sertanejo Amado Batista, autuado em duas propriedades rurais em Goianápolis (GO): o Sítio Esperança, com 10 trabalhadores, e o Sítio Recanto da Mata, com quatro — casos de 2024. A assessoria do artista classificou as informações como “completamente falsas” e afirmou que os trabalhadores seguem em suas atividades normalmente.
O cadastro, criado em 2004, chegou a ter sua divulgação suspensa entre 2014 e 2016 até que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu sua constitucionalidade. Desde então, permanece como principal instrumento de transparência no combate ao trabalho escravo no país.
A inclusão da montadora na lista brasileira ocorre num momento de pressão internacional crescente sobre cadeias produtivas chinesas: os próprios Estados Unidos abriram investigação pela Seção 301 para barrar importações produzidas com trabalho forçado em mais de 60 países — com a China entre os alvos diretos.
Desde 1995, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) — que completou 30 anos em 2025 — resgatou mais de 68 mil trabalhadores em todo o território nacional. As operações garantiram mais de R$ 160 milhões em verbas salariais e rescisórias.