A disputa entre a BYD e grandes montadoras como Volkswagen, Stellantis, GM e Toyota ganhou força após pedido da chinesa para redução de imposto de importação de carros semimontados. O governo decidiu antecipar o aumento do imposto, mas concedeu isenção temporária para veículos desmontados, buscando equilibrar interesses.
O embate expôs a tensão no setor automotivo brasileiro, com cartas públicas e acusações entre empresas, enquanto o mercado de carros elétricos cresce e marcas chinesas avançam no país.
Disputa por incentivos fiscais e reação do setor
No início de 2024, a BYD solicitou ao governo federal a redução do imposto de importação para veículos elétricos semimontados (SKD) e desmontados (CKD), sugerindo alíquotas de 10% e 5%, respectivamente. A empresa argumentou que a medida incentivaria investimentos e empregos, já que iniciou operações em Camaçari (BA) com esse modelo produtivo.
Em resposta, Volkswagen, Stellantis, GM e Toyota enviaram carta ao presidente Lula pedindo que a isenção não fosse concedida. Segundo as montadoras, a prática prejudicaria a indústria nacional, reduziria empregos e traria dependência tecnológica. A carta afirmava: “Seria uma forte involução, que em nada contribuiria para o nível tecnológico de nossa indústria, para a inovação ou para a engenharia nacional.”
A BYD rebateu, dizendo que a reação das concorrentes era motivada pelo receio de perder liderança de mercado e que o modelo de importação semiacabada já foi usado por outras montadoras. A empresa afirmou: “O incômodo das concorrentes não tem a ver com impostos, nem com montagem, nem com empregos. Tem a ver com a perda de protagonismo.”
O governo optou por antecipar para janeiro de 2027 o prazo para que todos os modelos importados atinjam a alíquota máxima de 35%. Também zerou, por seis meses, o imposto para veículos elétricos e híbridos desmontados ou semimontados, e instituiu cotas de importação de até US$ 463 milhões para esses kits, permitindo importação de cerca de 45 a 50 mil veículos em 2025.
Avanço das montadoras chinesas e impacto no mercado
A entrada de veículos importados, especialmente da China, é preocupação antiga da Anfavea. No primeiro semestre de 2025, o número de importados cresceu 15,6%, com a China registrando alta de 37,2% e 70.695 unidades emplacadas. A expectativa é que até o fim de 2025, os chineses alcancem 200 mil veículos importados no Brasil.
A BYD já ocupa a oitava posição no ranking nacional de vendas, à frente de Renault e Nissan, e responde por quase 20% das exportações globais da marca. Outras montadoras chinesas, como GWM e GAC, anunciaram investimentos bilionários para produção local, e a previsão é de 13 marcas chinesas atuando no país até o fim do ano.
Montadoras tradicionais destacaram que o setor automotivo representa 2,5% do PIB nacional, gera 1,3 milhão de empregos e planeja investir R$ 180 bilhões em modernização e novos modelos. Elas defendem que a importação de veículos desmontados pode comprometer a cadeia produtiva nacional.
Após o período de isenção, voltam a vigorar as alíquotas cheias e exigência de 55% de conteúdo local para tarifas mais baixas. A discussão evidencia o desafio de equilibrar inovação, competitividade e proteção à indústria nacional diante da rápida eletrificação e internacionalização do setor.