Saúde

Mais de mil crianças com deficiência esperam por adoção no Brasil

67% dos pretendentes excluem PCD do perfil e apenas 173 adoções foram concluídas em todo o país em 2025

Mais de 1.100 crianças e adolescentes com deficiência estão disponíveis para adoção no Brasil — e continuam esperando. Ao fim de 2025, o Conselho Nacional de Justiça registrava 1.146 perfis de PCD com até 16 anos, frente a uma fila de 32 mil pretendentes ativos.

O problema não é ausência de candidatos: dois terços dos habilitados simplesmente excluem crianças com deficiência do perfil desejado. Em 2025, apenas 173 adoções de PCD foram concluídas em todo o país.

Para especialistas, a institucionalização prolongada compromete o desenvolvimento cognitivo e emocional dessas crianças — e o dano se aprofunda a cada ano passado sem uma família.

Os últimos da fila

Diego, de 15 anos, vive em São Paulo com outras 14 crianças e jovens. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista antes de chegar ao abrigo atual, em 2015, ele não fala — mas interage e dança com os demais acolhidos. Chegou aos 5 anos sem nenhum estímulo sensorial, rastejando em vez de andar. Hoje, faz a higiene pessoal sozinho. “Ele precisa de uma atenção individual que só uma família conseguiria dar”, dizem os responsáveis pela instituição.

No Rio de Janeiro, a Casa Lar Dona Meca atende exclusivamente crianças e jovens com deficiência. A coordenadora Jéssica Souza resume a dinâmica: “A gente tem a entrada, mas não tem a saída. Houve alguns casos de adoção, mas é um número muito pequeno.”

O que os dados revelam

Segundo o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, 67% dos pretendentes aceitam apenas crianças sem deficiência. Quando o diagnóstico envolve comprometimento intelectual, a aceitação despenca para 5%. Deficiências físicas, como surdez ou cegueira, têm índice um pouco maior: 27,9%.

Entre 2019 e 2025, foram adotados 1.026 indivíduos com deficiência — mais da metade (544) com até 4 anos. A cada aniversário, as chances diminuem: o interesse dos adotantes cai sensivelmente quando a criança completa 10 anos.

Os danos da vida em abrigo

O neurocientista Charles Zeanah, professor da Universidade de Tulane (EUA) e referência mundial sobre institucionalização infantil, é direto: “Os efeitos do cuidado institucional alteram a estrutura e o funcionamento do cérebro, os avanços cognitivos, as funções executivas, o desenvolvimento emocional e a saúde mental.”

Para crianças com deficiência, o impacto é ainda mais severo. Silvana Blascovi de Assis, professora de Fisioterapia da Universidade Mackenzie, aponta que a ausência de estimulação precoce individualizada nos primeiros anos de vida é “ainda mais notável” em ambientes coletivos, onde cuidadores dividem atenção entre várias crianças ao mesmo tempo.

Famílias que escolheram o caminho contrário

Fabrício Pellegrino e Bruno Bruhns adotaram Sérgio, com autismo, aos 12 anos. Mesmo vindo de uma instituição estruturada, os avanços mais consistentes só apareceram no ambiente familiar. Para Fabrício, a diferença está no vínculo cotidiano: “É sentar junto para fazer a tarefa, repetir, testar outro jeito quando não dá certo. Faz diferença ter alguém ali todo dia, olhando, insistindo, ajustando.”

O casal não estabeleceu nenhum recorte de perfil ao se cadastrar. Questionados se a abertura visava acelerar o processo, foram diretos: “Se me dissessem que demoraria ainda mais sem escolher, eu manteria a decisão da mesma forma.”

O que falta para mudar

O defensor público Gustavo Samuel Santos aponta que o Estado frequentemente retira crianças de famílias vulneráveis por falta de moradia ou apoio, em vez de investir em políticas estruturais. Matilde Luna, diretora do Unicef Argentina, vai ao ponto central: “É muito difícil que as pessoas se disponham a adotar uma criança com deficiência se não houver apoio apropriado. E é aí que estamos falhando.”

A defensora pública Renata Tybiriçá resume o que famílias que já adotaram repetem como mantra: adoção “não é uma forma de caridade — é uma forma de ter filho.” Júnior, pai de Davi, adotado com autismo em 2020, sintetiza: “Nossa vida já era boa. Mas, sem o Davi, ela não seria completa.”

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