O número de alunos com deficiência matriculados na educação básica brasileira quase triplicou em dez anos, mas a formação de professores não acompanhou esse crescimento. Hoje, apenas 6% dos docentes concluíram cursos de inclusão com carga horária adequada — e as consequências aparecem no dia a dia das escolas.
Em uma escola pública de Ceilândia, no Distrito Federal, 76 alunos com algum tipo de deficiência estão matriculados, mas só 50 recebem atendimento educacional especializado. O limite não é estrutural: é a falta de professores capacitados.
A professora Gonçala é uma das poucas que atuam no atendimento especializado da escola em Ceilândia. Ela acompanha os estudantes à tarde, no contraturno, para que cheguem mais preparados às aulas regulares da manhã — um modelo que funciona, mas que ainda não alcança todos que precisam.
O cenário reflete um gargalo nacional. Segundo o Instituto Rodrigo Mendes, entre 2015 e os anos mais recentes, o número de estudantes da educação básica que necessitam de atendimento especializado saltou de 312 mil para mais de 850 mil. O Ministério da Educação (MEC) registrou 2,5 milhões de matrículas na educação especial em 2025.
Apesar da expansão, apenas 151 mil professores concluíram algum curso sobre inclusão com mais de 80 horas de formação — o equivalente a 6% do total de docentes dessa etapa de ensino. Entre esses, só 40% fizeram cursos específicos para o atendimento educacional especializado.
Distribuição desigual agrava o problema
O Instituto Rodrigo Mendes aponta que a oferta de suporte está concentrada nas etapas iniciais: alunos da pré-escola e dos anos iniciais do fundamental recebem mais assistência do que estudantes do ensino médio ou da Educação de Jovens e Adultos (EJA) — justamente os grupos com maior vulnerabilidade social.
Hoje, 92% das matrículas de alunos com deficiência ocorrem em classes comuns, dentro do ensino regular — o que está alinhado ao objetivo da política pública de inclusão. Mas 150 mil estudantes ainda permanecem fora do sistema regular de ensino.
Governo promete centros de referência, mas lacuna é urgente
O MEC reconhece que o crescimento das matrículas expõe a necessidade de ampliar e qualificar a formação docente. A resposta anunciada pelo governo é investir na construção de centros de referência em educação inclusiva em todo o país — estruturas que deveriam apoiar professores e gestores escolares na implementação de práticas mais eficazes.
A medida, no entanto, ainda está em fase de planejamento, enquanto professores como Gonçala enfrentam, no presente, salas com demanda maior do que a capacidade de atendimento permite.
O debate sobre educação inclusiva envolve não apenas a formação inicial de docentes, mas também políticas de valorização e concursos públicos específicos para profissionais do atendimento especializado — aspectos que o texto da política nacional de educação especial ainda precisa endereçar de forma mais concreta para reduzir a distância entre o direito garantido em lei e o acesso real nas escolas brasileiras.
