A Europa voltou ao topo do comércio global de armas. Pela primeira vez desde os anos 1960, o continente é o maior destino de armamentos do mundo — resultado de um salto de 12% para 33% de participação nas importações globais entre os períodos 2016-2020 e 2021-2025.
Os dados são do relatório mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), divulgado em 9 de março. O fluxo global de armas cresceu quase 10% nos últimos cinco anos.
Na América, o Brasil ficou em segundo lugar entre os importadores regionais, com 21% das compras — atrás apenas dos Estados Unidos (52%) — e liderou a América do Sul com 60% do total importado no período.
O salto europeu tem motivação clara: a guerra na Ucrânia redesenhou a percepção de risco no continente, acelerando processos de rearmamento que estavam paralisados desde o fim da Guerra Fria. Quase metade das armas destinadas à Europa (48%) veio dos Estados Unidos, enquanto a Alemanha foi o segundo maior fornecedor, com 7,1%.
Os americanos consolidaram sua liderança global, respondendo por 42% de todas as transferências internacionais — ante 36% nos cinco anos anteriores. Sob a administração Trump, as exportações de armas são tratadas como instrumento de política externa e alavanca para a indústria de defesa. “Os EUA consolidam ainda mais seu domínio como fornecedor de armas, mesmo em um mundo cada vez mais multipolar”, afirmou Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Sipri.
Polônia lidera rearmamento entre aliados europeus da Otan
O maior importador de armas entre os países europeus da aliança atlântica é hoje a Polônia, que faz fronteira com a Ucrânia e Belarus. O volume de importações polonesas cresceu 852% no período — o dado mais expressivo do relatório —, reflexo direto do esforço de rearmamento diante da ameaça percebida a leste.
A corrida europeia por armas ganha sentido também diante do comportamento russo fora do campo de batalha: dias antes da divulgação do relatório do Sipri, Putin ameaçou cortar o fornecimento de gás à Europa, sinalizando que Moscou segue disposta a usar energia como instrumento de pressão geopolítica.
Apesar dos discursos europeus sobre autossuficiência em defesa, as transferências entre países do próprio continente representaram apenas um quinto dos fluxos totais — os fornecedores europeus ainda exportam majoritariamente para fora da região.
Do lado dos exportadores, a Rússia registrou queda de 64% nas vendas de armamentos. O país consome crescente parcela de seu próprio equipamento no front ucraniano, enquanto EUA e Europa pressionam países terceiros a abandonar fornecedores russos. Em paralelo, a Alemanha superou a China e tornou-se o quarto maior exportador global (5,7%), atrás de França (9,8%) e da própria Rússia (6,8%). Das exportações alemãs, 24% foram para a Ucrânia e apenas 17% para outros países europeus.
China recua e Ásia se reequipa com urgência
A China reduziu suas importações em 72%, saindo pela primeira vez desde o início dos anos 1990 da lista dos dez maiores compradores mundiais. O movimento reflete a aposta chinesa em tecnologia de defesa doméstica — caminho que Índia e Paquistão também vêm trilhando, ainda que com maior dependência de fornecedores externos. O recuo chinês, porém, gera efeito cascata regional: Japão aumentou importações em 76% e Taiwan, em 54%, motivados em parte pelos temores sobre as intenções de Pequim na região.
No Oriente Médio, os fluxos caíram 13%, mas a região ainda concentra três dos maiores importadores globais — Arábia Saudita (6,8%), Catar (6,4%) e Kuwait (4,8%). O cenário pode se alterar substancialmente: o conflito entre EUA, Israel e Irã, em curso desde 28 de fevereiro, representa uma variável de incerteza direta para o setor. O mesmo confronto que o Sipri aponta como fator de risco para o comércio de armas no Oriente Médio é acompanhado de perto pelo Brasil, cujo fechamento do Estreito de Ormuz já reorganizou rotas de energia e comércio global.