A guerra entre Estados Unidos e Irã reacendeu um risco que parecia confinado à pandemia: o colapso no abastecimento global de medicamentos. Desta vez, o gatilho não é um vírus, mas a volatilidade do petróleo e a ruptura das rotas de suprimento internacionais.
O Brasil está no centro da vulnerabilidade. O país importa cerca de 90% dos seus insumos farmacêuticos ativos (IFAs) da China e da Índia — as duas nações que estruturam a produção global do setor e que também dependem das mesmas rotas comprometidas pelo conflito.
Com o Estreito de Ormuz fechado e ataques a navios no Mar Vermelho, armadores redirecionaram frotas ao redor da África, dobrando o tempo de viagem e elevando os custos logísticos em toda a cadeia.
Os impactos econômicos do conflito já ultrapassam US$ 700 bilhões, segundo o Instituto para Economia e Paz. A alta do petróleo é o mecanismo central: ela eleva os custos operacionais, encarece o transporte e corrói as margens do setor farmacêutico global.
Cerca de 35% dos produtos farmacêuticos de maior valor agregado — incluindo vacinas e medicamentos com prazo de validade curto — são transportados por via aérea. O bloqueio ou encarecimento dessas rotas tem efeito imediato sobre a disponibilidade desses itens nos mercados importadores.
China e Índia no centro da cadeia global
A China responde por aproximadamente 44% da produção mundial de IFAs, exportando mais de US$ 42 bilhões anuais. O país também ultrapassou os Estados Unidos no volume de patentes farmacêuticas e biotecnológicas, concentrando cerca de 70% das famílias de patentes registradas globalmente. Seu mercado interno deve atingir US$ 300 bilhões em 2026.
A Índia consolidou-se como a farmácia do mundo: mercado avaliado em US$ 65 bilhões, exportações para mais de 200 países e participação de cerca de 20% no mercado global de genéricos. As projeções apontam para US$ 130 bilhões nos próximos anos e US$ 450 bilhões até 2047.
O problema é que parcela relevante dessa capacidade produtiva indiana depende de cerca de US$ 3,2 bilhões anuais em IFAs importados da China. Quando uma cadeia pressiona a outra, o efeito cascata chega a hospitais e farmácias em todo o mundo.
Mesmo após o acordo de paz anunciado recentemente, o Brent seguia quase US$ 10 acima dos níveis pré-conflito — um sinal de que os custos de logística e energia que pressionam a cadeia farmacêutica global ainda devem demorar a ceder.
Brasil: dependência estrutural e atraso regulatório
Com 90% dos IFAs importados da Ásia, o Brasil sofre diretamente os impactos da alta dos custos de energia, transporte e produção. A questão do acesso a medicamentos oscila entre o risco de desabastecimento em países mais pobres e a alta de preços nos mercados mais ricos — e o Brasil está exposto nos dois flancos.
Especialistas apontam que a solução passa pela diversificação das fontes de insumos e pela modernização da política de inovação farmacêutica. Dois obstáculos travam o avanço: os cortes e bloqueios de verba do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e a ausência de instrumentos para acelerar o patenteamento de novos fármacos — como o sistema Orange Book, em vigor nos Estados Unidos desde 1984 e adotado por Canadá, Singapura, Coreia do Sul, Austrália e China.
O Lloyd’s de Londres mantém prêmios de risco de guerra elevados para travessias pelo Estreito de Ormuz mesmo após o cessar-fogo, e armadores exigem semanas de observação antes de reenviar tripulações à região — o que ajuda a explicar por que os custos logísticos que afetam o setor farmacêutico global continuam pressionados.
Para o Brasil, o conflito no Oriente Médio tornou ainda mais urgente o que o país adiou por décadas: investir na produção doméstica de insumos estratégicos e avançar em ritmo muito mais veloz do que o atual.
