Política

Fiscais do trabalho deixam cargos após revisão de processo sobre JBS por ministro

Decisão de Luiz Marinho de revisar pessoalmente apuração sobre trabalho escravo motiva saída de coordenadores do MTE

Coordenadores estaduais de Combate ao Trabalho em Condições Análogas à Escravidão do Ministério do Trabalho e Emprego entregaram seus cargos executivos em protesto.

A decisão foi motivada pela revisão pessoal do ministro Luiz Marinho em processo que poderia incluir unidade da JBS na lista suja do trabalho escravo.

Os auditores alegam que a medida compromete a integridade da fiscalização e representa interferência política indevida.

Entenda o protesto dos fiscais

O movimento dos auditores-fiscais, que permanecem em seus cargos efetivos mas deixam funções de coordenação, surgiu após o ministro Luiz Marinho, do Ministério do Trabalho e Emprego, decidir revisar pessoalmente um processo administrativo já encerrado. O caso envolve a unidade avícola da JBS SA no Rio Grande do Sul, investigada por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão.

A decisão de Marinho, respaldada por parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), reintroduziu o uso do instituto da avocação, previsto na CLT desde a década de 1940, permitindo intervenção ministerial em processos administrativos. Para os coordenadores, tal medida viola a Constituição Federal de 1988 e a Convenção 81 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil.

Detalhes da investigação contra a JBS

O estopim foi uma operação federal em 2023, que flagrou 10 trabalhadores terceirizados em jornadas de até 16 horas, alojados sem água potável e sujeitos a descontos ilegais nos salários. A unidade da JBS Aves, em Passo Fundo, foi considerada responsável pela fiscalização por não realizar a devida diligência sobre a contratada. Normalmente, isso resultaria na inclusão da empresa na lista suja, com impactos financeiros e reputacionais.

Após a decisão dos fiscais, a AGU autorizou o ministro a avocar o processo, citando a relevância econômica da JBS, que emprega cerca de 158 mil pessoas no Brasil. Marinho então retirou o processo para revisão própria.

Repercussão e posicionamentos

Segundo a Reuters, nunca houve intervenção ministerial direta em processos da lista suja em mais de duas décadas de força-tarefa. A Associação Gaúcha dos Auditores Fiscais do Trabalho (Agitra) manifestou ‘profunda estranheza e preocupação’. Livia Miraglia, professora da UFMG, alertou para o precedente perigoso de permitir intervenção política em casos semelhantes.

O Ministério do Trabalho e Emprego declarou não ter recebido pedidos formais de entrega de cargos e afirmou que a avocação seguiu o artigo 648 da CLT, não sendo inédita nem exclusiva e não relacionada ao porte da empresa. O ministério reafirmou compromisso com transparência e combate ao trabalho escravo.

O Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul ajuizou ação civil pública contra a JBS Aves, buscando responsabilização por trabalho análogo à escravidão. O resgate dos trabalhadores ocorreu em dezembro de 2024, em Arvorezinha, durante operação conjunta com o MTE e a PRF.

A JBS informou que suspendeu e bloqueou imediatamente a terceirizada envolvida e declarou ter tolerância zero com violações trabalhistas, exigindo o cumprimento de seu Código de Conduta e Política Global de Direitos Humanos por todos os fornecedores.

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