Política

Governo Trump recorre de decisão que impede demissão de diretora do Fed

Departamento de Justiça tenta reverter liminar que mantém Lisa Cook no cargo antes de reunião crucial sobre juros

O governo do presidente Donald Trump recorreu nesta quarta-feira (10) contra a decisão judicial que suspendeu sua tentativa de demitir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos.

A medida ocorre a poucos dias da reunião do Fed que definirá a política de juros, marcada para 16 de setembro de 2025.

A juíza Jia Cobb considerou que as acusações de fraude hipotecária contra Cook não justificam sua remoção imediata.

Recurso do governo Trump e decisão judicial

O Departamento de Justiça dos EUA apresentou um comunicado sucinto informando o recurso à Corte de Apelações do Circuito de Colúmbia, sem detalhar argumentos jurídicos. A decisão da juíza Jia Cobb, tomada na noite anterior, impede a demissão de Lisa Cook enquanto o processo judicial está em andamento. Trump havia tentado demiti-la no final de agosto, alegando fraude hipotecária anterior à sua nomeação, mas Cobb entendeu que tais alegações não constituem motivo suficiente para sua remoção.

Segundo a magistrada, o interesse público na independência do Fed frente à pressão política pesou a favor de manter Cook no cargo. Ela ressaltou que o caso levanta questões inéditas sobre a base legal para a demissão de um diretor do Fed e concluiu que apenas má conduta durante o exercício do cargo justificaria a remoção.

Acusações e defesa

Cook nega qualquer irregularidade e afirma que a acusação é um pretexto para afastá-la devido à sua posição sobre política monetária. Ela entrou com processo no final de agosto, alegando que o presidente não tem autoridade legal para removê-la por fatos anteriores à sua entrada no banco central.

Trump e William Pulte, diretor da Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA), alegam que Cook informou incorretamente três propriedades em pedidos de hipoteca, o que poderia ter resultado em juros mais baixos e créditos fiscais. O Departamento de Justiça também abriu investigação criminal e emitiu intimações de um grande júri na Geórgia e em Michigan.

Implicações e contexto político

O caso pode chegar à Suprema Corte dos EUA, pois envolve a autonomia do Federal Reserve em relação a pressões políticas, considerada essencial para o controle da inflação. Até hoje, nenhum presidente havia demitido um diretor do Fed, e a legislação nunca foi testada nos tribunais. A lei que criou o banco central determina que diretores só podem ser removidos por ‘justa causa’, mas não detalha o termo nem o procedimento.

Trump tem pressionado o Fed por cortes de juros imediatos e criticado o presidente da instituição, Jerome Powell. A expectativa é de anúncio de redução de juros na reunião de 16 e 17 de setembro. Desde 2022, Cook acompanhou a maioria do Fed em todas as decisões sobre juros.

Casos semelhantes envolvendo tentativas de demissão de autoridades de agências independentes já foram suspensos temporariamente por cortes superiores, incluindo o Circuito de D.C. Nesta quarta-feira, o mesmo circuito barrou a tentativa de Trump de demitir Shira Perlmutter, diretora do Escritório de Direitos Autorais dos EUA, enquanto ela recorre de decisão desfavorável.