O preço global do cacau atingiu recordes no final de 2024, impulsionando otimismo entre produtores do sul da Bahia. No entanto, a queda nas cotações e novas tarifas dos EUA mudaram o cenário. Pequenos agricultores, que planejavam investir em modernização, agora enfrentam incertezas e desvalorização do produto, além de dificuldades nas negociações com multinacionais.
Oscilações do mercado e desafios na negociação
Após a euforia causada pela alta do preço do cacau no fim de 2024, produtores baianos viram o valor recuar devido à expectativa de recuperação das safras em Gana e Costa do Marfim. A cotação na bolsa de Nova York, referência para o Brasil, caiu e, segundo a Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), o valor pago internamente chegou a ser R$ 85 menor por arroba em agosto. Pequenos e médios produtores, que representam cerca de 70% da produção nacional, relatam desvantagem frente às multinacionais que dominam as compras.
De acordo com Mônica Pires, da Universidade Estadual de Santa Cruz, “é uma cadeia com poucos compradores e muitos vendedores”, o que favorece as indústrias estrangeiras. Práticas como a precificação baseada em bolsas futuras, que podem estar até US$ 1 mil abaixo da cotação atual por tonelada, promovem deságio e pressionam os agricultores. Luis Fagundes, produtor, destaca que a fragilidade econômica impede os produtores de segurar o produto para negociar melhores preços.
Além disso, a indústria alega que a produção nacional não supre a demanda interna, especialmente de pó de cacau, levando à importação de amêndoas africanas sob drawback. A ociosidade das fábricas chega a 12% e pode aumentar para 18% em 2025, agravada pelas tarifas dos EUA. Segundo Anna Paula Losi, da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), a redução da demanda e volatilidade internacional afetam toda a cadeia, tornando insustentável o valor elevado para o consumidor final brasileiro.
Impactos das tarifas e frustração dos produtores
O setor prevê perdas de até R$ 180 milhões até o fim de 2025 devido à tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros, afetando especialmente a exportação de manteiga de cacau, principal item enviado ao mercado americano. Em 2024, as exportações para os EUA somaram US$ 72,6 milhões, cerca de 16% do mercado. Com a dificuldade de redirecionar a manteiga para outros países, as fábricas projetam redução da moagem nos próximos meses.
Produtores como Josenilda Silva, de Jitaúna (BA), adiaram investimentos em equipamentos e energia solar. “Os pequenos agricultores são os que mais trabalham, mas o retorno nem sempre é leal com a gente”, afirma. A região, que ainda se recupera dos impactos da vassoura-de-bruxa nas décadas de 1980 e 1990, vê interrompido o ciclo de reconstrução. José Luis Fagundes, de Igrapiúna, também suspendeu planos de expansão devido à instabilidade dos preços e à falta de confiança na cadeia produtiva.
Apesar de campanhas da ANPC para valorizar o cacau brasileiro e reduzir importações, a dependência das multinacionais e a volatilidade internacional mantêm os produtores em situação vulnerável. A indústria incentiva vendas diretas e práticas sustentáveis, mas a esperança de retomada esmorece diante das incertezas do mercado.