O governo brasileiro articula uma resposta coletiva dos países amazônicos à movimentação de navios de guerra dos Estados Unidos no Caribe. A declaração final da cúpula da OTCA, marcada para sexta-feira (22) em Bogotá, deve enfatizar que o combate a crimes na região cabe aos próprios países. A medida é vista como alternativa à crítica direta à presença militar americana, liderada por Donald Trump, próxima à Venezuela.
Contexto da movimentação americana
A presença de navios militares dos Estados Unidos próximos aos países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), especialmente à Venezuela, foi motivada pelo discurso do presidente Donald Trump de combater cartéis de drogas latino-americanos. Apesar de as embarcações permanecerem em águas internacionais, o gesto incomodou governos da região. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, classificou a ação como “agressão imperialista” e acusou Trump de usar o combate ao tráfico como pretexto para intervir no país.
Segundo fontes do governo brasileiro, o objetivo da articulação é reduzir simbolicamente o espaço de Washington e enfraquecer os argumentos de Trump para justificar a presença militar. Por ora, o Brasil descarta um posicionamento unilateral ou crítico, temendo que isso seja interpretado como provocação pela Casa Branca e agrave a crise diplomática já existente devido ao tarifaço.
Encontro da OTCA e COP30
O encontro da OTCA, que reúne Brasil, Colômbia, Bolívia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, terá como principal objetivo alinhar posições para a COP30, marcada para novembro no Brasil. Embora a movimentação dos navios americanos não seja o tema central, espera-se que a questão seja abordada na declaração final, com ênfase na prerrogativa dos países amazônicos de combaterem juntos crimes como tráfico de drogas, garimpo ilegal e exploração de madeira.
Repercussão e bastidores diplomáticos
Nos bastidores, representantes do governo Lula têm mantido diálogo com interlocutores americanos para compreender melhor as intenções de Trump ao enviar navios militares à América do Sul. A avaliação é que o movimento serve de “espantalho perfeito” para enviar recados a outros países afetados pelo tráfico, como México e Panamá. Segundo relatos, americanos próximos a Trump afirmam que ele busca o Prêmio Nobel da Paz e estaria empenhado em mediar o conflito entre Rússia e Ucrânia, o que tornaria improvável uma agressão militar a outro país neste momento.
O governo brasileiro acredita que uma resposta coletiva e indireta dos países amazônicos, destacando a autonomia regional no combate a crimes, pode evitar a escalada de tensões diplomáticas. Uma manifestação mais contundente só seria considerada caso houvesse uma escalada, como a invasão de águas venezuelanas pelas embarcações americanas.